Disputa acirrada entre Aviagen e Cobb

Controlada pelo grupo alemão Erich Wesjohann (EW) desde 2005, a empresa de genética avícola Aviagen concluirá neste ano um pacote de investimento de R$ 100 milhões no Brasil. O objetivo da companhia é assumir a liderança do mercado brasileiro de matrizes (reprodutoras) de frango, um feito que parecia impossível no início desta década. Sua concorrente, a Cobb-Vantress, porém, já preparou a reação, com investimentos de US$ 20 milhões ao ano previstos até 2022 no país.

Em 2011, a participação da Aviagen no Brasil atingiu 17%. Na década anterior, a companhia chegara a ter 50% do comércio de aves reprodutoras. A contínua redução de sua fatia de mercado, que teve início em 2003, refletia o pior desempenho de suas linhagens de aves, disse o presidente da Aviagen na América Latina, Ivan Lauandos. Segundo ele, as aves da companhia começaram a perder espaço para as da Cobb, que é o braço de genética avícola da Tyson Foods, maior produtora de carnes dos Estados Unidos.

Em busca de maior peso na gestão para reverter o quadro, a Aviagen adquiriu, ainda em 2007, a participação da Agroceres na companhia, tornando-se a única acionista da operação no Brasil. Foi nesse período que teve início o programa da Aviagen para desenvolver aves mais adaptadas ao mercado brasileiro.

A partir das 30 linhas pedigree que a Aviagen tem fora do país, geneticistas fizeram cruzamentos para chegar a dois "produtos": um frango com maior rendimento de peito e outro cuja característica é o menor custo de engorda.

Depois de cinco anos, em 2012, a Aviagen lançou as aves no mercado. Aos poucos, a empresa de genética começou a recuperar participação no Brasil, motivando investimentos para a ampliação de granjas e incubatórios. "Recuperamos a liderança", disse Lauandos.

O executivo não comentou, mas o crescimento da Aviagen reflete também uma decisão comercial adotada pela concorrente Cobb. Desde janeiro, a companhia não comercializa as chamadas aves "avós" – a geração responsável pela produção de matrizes -, decisão que desagradou a Seara e BRF, admitiu o diretor-executivo da Cobb na América do Sul, Jairo Arenázio. No Brasil, apenas as duas líderes em carne de frango têm escala para comprar as avós. As outras indústrias compram matrizes.

Segundo Arenázio, a decisão da Cobb, que levou mais de cinco anos para ser tomada, é "corajosa", e visa dar condições iguais aos clientes. Ao comprar avós, Seara e BRF tinham custos menores para produzir matrizes, afirmou.

Para a Cobb, o desafio é que BRF e Seara têm uma fatia relevante da produção de frango no país. "Eles perdem 35% do mercado só no arranque da estratégia comercial", disse ao Valor um executivo da indústria, projetando que a Aviagen assumirá a liderança já em 2018.

De acordo com Lauandos, a programação de vendas da Aviagen indica que a empresa terá 60% do mercado brasileiro de aves matrizes no próximo ano. Com isso, o faturamento no país atingirá R$ 400 milhões em 2019, projetou. O valor é 14% maior do que os R$ 350 milhões projetados para este ano.

Arenázio, da Cobb-Vantress, assegura que não perderá a liderança do setor no Brasil. "Teremos ainda 70% do mercado", disse. Apesar da reação negativa de BRF e Seara à decisão da empresa de não comercializar avós, o executivo afirmou que a Cobb está em negociações com as duas agroindústrias para vender as aves matrizes.

Por conta disso, a Cobb está ampliando a capacidade de suas granjas no Brasil, para elevar a produção anual de matrizes dos atuais 25 milhões para 30 milhões já no próximo ano. Até 2022, a empresa quer atingir capacidade para produzir 42 milhões de matrizes. O número inclui os dados da parceira gaúcha Agrogen, que pertence ao Grupo Vibra (ver abaixo).

Na Aviagen, o crescimento também é sustentado pelos investimentos de R$ 100 milhões nos últimos dois anos. Segundo Lauandos, a capacidade de alojamento de aves avós da Aviagen no Brasil foi ampliada em 50%, para cerca de 1,5 milhão de aves. A empresa tem unidades nos Estados de São Paulo e Minas Gerais (ver mapa acima).

Nos planos da Aviagen, estava a continuidade dos investimentos. No entanto, a crise da avicultura nacional, que vem sofrendo com as restrições internacionais após a Operação Carne Fraca, levou a empresa a postergar os aportes. Quando a situação melhorar, a Aviagen pretende investir R$ 35 milhões na construção de uma nova granja, ampliando a capacidade de produção anual de matrizes de 13 milhões a 16 milhões.

Juntas, a Aviagen e a Cobb podem produzir 38 milhões de matrizes por ano. De acordo com Arenázio, da Cobb, o plantel brasileiro é de 50 milhões de matrizes (o que inclui as aves matrizes de BRF e Seara, que priorizam a aquisição da geração de galinhas avós).

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor