Déficit hídrico previsto para 2030 faz reúso de água ganhar importância

Projeções globais indicam que até 2030 o planeta enfrentará um déficit de água de 40%. Com população maior e mais lugares enfrentando estresse hídrico, águas de reúso produzidas a partir de tratamento de esgoto ganham destaque. No Brasil, no entanto, a prática é tímida e a legislação, insuficiente. O maior obstáculo está no planejamento urbano.

Regiões quentes e com pouca água como Israel, Austrália e Califórnia (EUA) empregam água de reúso. Trata-se de limpar água já utilizada em níveis de qualidade que podem chegar até a potabilidade, como faz a Namíbia desde os anos 60 quando instalou a primeira unidade do gênero do mundo.

O tema foi central em vários painéis do 8º Fórum Mundial da Água, em Brasília, com exemplos de diversos países do Oriente Médio e África. Em Israel, por exemplo, a mesma água chega a ser usada quatro vezes. "É uma nova fronteira", disse Teresa Vernaglia, CEO da BRK Ambiental, em reunião com empresários promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) no domingo.

A empresa tem junto com a Sabesp o projeto Aquapolo, o maior do gênero na América do Sul e um dos dez maiores do mundo. A unidade da BRK tem capacidade de fornecer mil litros de água de reúso por segundo, volume equivalente ao consumo de água potável de uma cidade como Santos, litoral de São Paulo. O projeto abastece indústrias de Capuava, em Mauá, no ABC paulista.

"O Brasil não tem legislação adequada sobre reúso. É um assunto muito pouco desenvolvido no país", diz Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil. O tema ganhou holofotes na crise hídrica há três anos, em São Paulo. "Mas quando a crise passa, esquece-se de tudo novamente", diz.

Quando a água de reúso é destinada a fins industriais como resfriamento de sistemas de produção, por exemplo, a dificuldade pode ser de planejamento urbano e não de tecnologia, explica José Carlos Mierzwa, especialista em engenharia sanitária e ambiental da USP. "As estações de tratamento de água são centralizadas, mas a demanda nas indústrias é descentralizada", continua.

Ele cita um estudo feito pelo Centro Internacional de Referência em Reúso de Água com a União Europeia para avaliar o potencial do reúso na região metropolitana de São Paulo. "O potencial não chega a 10% da demanda de água da região, em função das dificuldades com o planejamento urbano", diz.

Mierzwa estima que o investimento em uma rede adicional de distribuição seria 80% do total para que o reúso de água fosse mais utilizado na região metropolitana de São Paulo, por exemplo. A unidade de tratamento da água consumiria apenas 20% do investimento total.

O especialista diz que São Paulo, por exemplo, tem legislação sobre reúso de água, mas falta detalhamento. Não há regulamentação que defina responsabilidades e padrões de qualidade. "Isso é fundamental. Se disseminarmos práticas de reúso de água com padrões de qualidade inadequados corre-se o risco de termos epidemias", alerta.

Águas de chuva coletadas não são consideradas de reúso. Há condomínios residenciais, contudo, que tratam a água usada e a utilizam para lavar áreas coletivas e regar jardins. "O que não é bom é quando se transfere ao cidadão a responsabilidade de um serviço que deveria ser, obrigatoriamente, do poder público", diz Mierzwa.

Por Daniela Chiaretti | De Brasília

Fonte : Valor

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