Desvalorização do real falha em animar balança comercial

Com um mix de desestímulo à entrada de capital externo especulativo e redução dos juros, o governo conseguiu levar o real do pico de R$ 1,55 por dólar em julho de 2011 para pouco mais de R$ 2,00 atualmente, uma desvalorização de quase 30%. O índice da taxa de câmbio real efetiva atingiu em junho o nível mais desvalorizado desde meados de 2009, segundo a Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). Calculado em relação a uma cesta de 13 moedas ponderadas pelo seu peso no comércio exterior, o índice estava em junho cerca de 20% abaixo do patamar de julho de 2011, quando atingiu o pico de 27 anos.

Apesar da significativa desvalorização do real neste ano, as exportações nada reagiram. Dados divulgados ontem mostram que as exportações encolheram 1,7% nos primeiros sete meses do ano e as importações cresceram 3,1%. O saldo da balança comercial despencou 38,2% para US$ 9,9 bilhões, e as estimativas são de que deve fechar o ano no menor patamar em dez anos.

Levantamento publicado pelo Valor (30/7) indica que o próprio governo espera que o saldo comercial despenque praticamente pela metade neste ano, de US$ 29,8 bilhões em 2011 para US$ 15 bilhões. A estimativa é inferior à do Banco Central (BC), de US$ 18 bilhões para este ano, que leva em conta exportações de US$ 258 bilhões, US$ 2 bilhões acima de 2011, e importações de US$ 240 bilhões, US$ 13,8 bilhões maiores do que no ano anterior. Há previsões mais pessimistas, como a da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), que espera superávit de US$ 8 bilhões. Como o saldo comercial acumulado até julho está acima disso, a AEB pressupõe resultado zero ou até negativo nos próximos meses.

O Valor apurou que os exportadores estão aproveitando o câmbio mais favorável para recompor margem e dar algum desconto aos clientes. Mas não conseguem aumentar as vendas por falta de competitividade e porque a demanda internacional continua fraca. O comércio mundial vem encolhendo desde o início da década, em 2010, quando teve um repique com expansão de 13,8%. Em 2011, cresceu apenas 5% e, neste ano, a previsão da Organização Mundial do Comércio (OMC) é de que não vai chegar a 4%, ficando ao redor de 3,7%.

Os números indicam os limites do esforço do governo para estimular a economia. Na verdade, o economista da FGV, Régis Bonelli, disse ao Valor que "uma parte do estímulo à demanda está vazando para o comércio exterior e isso vai continuar neste ano".

Estudo divulgado no último relatório de inflação do BC mostra que parcela significativa do aumento da demanda interna está sendo atendida pelas importações, especialmente de bens de consumo duráveis e bens de capital. A indústria não está acompanhando o ritmo e isso afeta a balança comercial.

O consumo aparente de bens industriais, composto pela produção industrial doméstica e importações, deduzidas as exportações, cresceu 16,7% de 2008 a 2011, quase três vezes mais do que a produção, que aumentou 5,9%. As importações saltaram 45,9% e as exportações caíram 18,8%.

O setor de bens duráveis foi o que mais se beneficiou do aumento do crédito e do emprego e renda no período analisado. Por isso o consumo dos bens duráveis cresceu 21,8%. Mas a produção subiu apenas 5%. Por isso, a importação saltou 167,2%, enquanto a exportação diminuiu 24,6%.

Favorecido pelas medidas de incentivo ao investimento e à indústria, o consumo de bens de capital cresceu 44,3% entre 2008 e 2011. Entre essas medidas estão a Política de Desenvolvimento da Produção (PDP), de 2008, que incluiu entre o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), o Plano Brasil Maior, de 2011, melhores condições de crédito e a apreciação do real. Mas cerca da metade da demanda adicional de bens de capital foi atendida pelas importações, que cresceram 87,5%. A produção aumentou apenas 17,8% e as exportações diminuíram 21,7%.

Já o consumo de bens não duráveis cresceu menos, 8,7%, menos sensível ao aumento do crédito, mas nessa área houve aumento de 62,3% da importação, recuo de 13,3% da exportação e aumento de 5% da produção.

O saldo menor da balança comercial tem impacto no balanço de pagamentos, que novamente deve ser salvo neste ano pela entrada de investimento direto estrangeiro. Mas não só isso. Como apontou a reportagem do Valor, o baixo crescimento torna as exportações cada vez menos capazes de compensar o efeito negativo das importações no desempenho do PIB, que vem prevalecendo desde 2006.

Fonte : Valor Econômico

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