Desembolsos do Bndes para investimentos gaúchos quase quadruplicaram em 10 anos

Dinheiro para grande empresa ou pequena, para celulose, cinema e estádios de futebol. Os repasses do Bndes quase quadruplicaram entre 2003 e 2012 no Estado. A ação do superbanco revelou a fome por capital mais barato e cutucou a banca privada

Patrícia Comunello

FREDY VIEIRA/JC

Disponibilidade de recursos com taxas subsidiadas ajuda a amenizar desvantagens do Custo-Brasil

Disponibilidade de recursos com taxas subsidiadas ajuda a amenizar desvantagens do Custo-Brasil

O maior investimento da história recente da economia gaúcha terá um empurrão do maior caixa forte do momento para investimento produtivo do País. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) já deu sinal verde para emprestar R$ 2,5 bilhões à Celulose Riograndense, pertencente à chilena CPMC. O limite contratado em 2012 representa a metade do valor do empreendimento, anunciado em quase R$ 5 bilhões. É crédito do Tesouro Nacional, maior lastro dos ativos da instituição, garantindo que o complexo situado em Guaíba, na Região Metropolitana (que produz 450 mil toneladas de celulose anuais), ganhe, na prática, um novo parque industrial, que quadruplicará a capacidade, passando a 1,8 milhão de toneladas ao ano.
Para o diretor-presidente da empresa, Walter Lídio Nunes, a disponibilidade de recursos com taxas subsidiadas ajuda a amenizar desvantagens do chamado Custo-Brasil, principalmente o que é associado à gordura tributária, que implica despesas equivalentes a 19% do projeto. “No Uruguai, esse percentual é de apenas 1%”, contrasta o executivo. Além disso, o crédito ameniza diferenças de preços internos ante os internacionais. “A meta é usar a cifra na faixa que solicitamos. Será uma boa parcela”, adianta o diretor-presidente da unidade, que exporta mais de 90% da matéria-prima. Crédito mais em conta também ameniza o aporte do acionista, mais caro e que corrói a rentabilidade do negócio, acrescenta o executivo. A empresa já tinha sacado R$ 47,5 milhões em 2011 para erguer a base florestal de eucaliptos.
Com a operação, a companhia chilena confirma que a instituição financeira é a preferida dos empresários e dos governos para sustentar expansões, melhorias em processos industriais (como inovação), na infraestrutura e nos serviços. “O mundo pode não ser perfeito com ele (Bndes), mas seria muito pior sem”, demarca Nunes. Melhor foi, pelo menos nos últimos 10 anos.
No Estado, o banco saiu de desembolsos de R$ 2,7 bilhões em 2003 para R$ 9,9 bilhões em 2012, salto de 263,4%. Em três anos, foram mais de R$ 30 bilhões traduzidos em plataformas de petróleo, plantas industriais como a da americana Manitowoc, em atividade em Passo Fundo, parques eólicos, ramos de tecnologia e salas de cinema, como as do Shopping Praia de Belas, que contratou R$ 2,4 milhões em 2012. A Arena do Grêmio teve R$ 221 milhões e a repaginação do estádio Beira-Rio consumirá R$ 275,1 milhões.
O relatório de volume de empréstimos ao Rio Grande do Sul, elaborado pela instituição federal para o Jornal do Comércio, assinala que a indústria elevou em 334,5% o crédito entre 2003 e 2012. O setor de infraestrutura ascendeu 242%, enquanto comércio e serviços ultrapassaram 775%. Na conta, não estão recursos sacados por grupos com atuação nacional, que diluem os desembolsos em várias plantas. No País, o banco saiu da injeção de R$ 33,5 bilhões a R$ 156 bilhões no mesmo período, alta de 365,2%. O recorde foi em 2009, ano do piso da crise financeira externa, e quando o então presidente Lula escalou a elite de bancos públicos para segurar o nível de crédito.
O retrospecto confirmou outro viés declarado pelos executivos da instituição, que é impulsionar linhas para as regiões consideradas mais carentes de desenvolvimento. O balanço mostra desembolsos do Norte (alta de 1.773%), Centro-Oeste (609,9%) e Nordeste (576%) com larga vantagem sobre os estigmatizados ricos federativos (Sul, 325%, e Sudeste, 261,5%). “Os repasses passam a ser cada vez mais relevantes para a eficiência, qualidade e inovação dos negócios”, pontuou João Carlos Ferraz em abril, pouco antes de deixar a vice-presidência do banco e assumir a diretoria para América Latina, Caribe e África. Ferraz justificou que o crescente aporte aos setores busca corrigir a lentidão com que decisões sobre inovação são tomadas, associadas a riscos de contratar capital para investimento no caixa privado.
“Faz sete anos que a agenda de investimento e inovação entrou no País, e o banco foi ativo nisso”, ressaltou o agora diretor. Ferraz citou que o ciclo focado em renda e consumo, marca desde 2003, deve ser acrescido de eficiência, o que demandará mais recursos. “Teremos mais crescimento do investimento em 2013. A janela é única para um choque de produtividade”, defendeu o diretor. O banco ainda é ativo na capitalização de empresas, alvo de críticas devido ao fraco desempenho de algumas grandes eleitas, como LBR (Lácteos Brasil, parte dos acionistas da gaúcha Bom Gosto), em recuperação judicial e que recebeu R$ 700 milhões. “A função do banco é estimular o desenvolvimento. Não podem condená-lo”, postula Nunes. “Tem tanta coisa para corrigir no Brasil e não é o Bndes.” O diretor-presidente da Celulose Riograndense aponta que a inserção do superbanco é uma forma de compensar o alto custo de tributos. “Ver só um lado é miopia. Coloca juros de mercado, mas tira o peso dos impostos que não precisamos mais do banco.”

Altus fatura R$ 100 milhões graças ao banco federal  

Poucas gaúchas conseguem superar a empresa de tecnologia em automação Altus, com sede em São Leopoldo, no volume de operações com o Bndes. Foram quatro desde 2000, montante de quase R$ 48 milhões, além do ingresso do Bndespar como sócio minoritário do capital. Os gestores da indústria, que tem entre clientes Petrobras, usinas hidrelétricas, distribuidores de combustíveis e operadores de metrô, sabem que sem o caixa do superbanco a história poderia ter sido bem outra. “A Altus não seria o que é hoje se não tivesse tido acesso a esses aportes”, traduziu o presidente do Conselho de Administração, Ricardo Fellizola. 
Entre 2002 e 2012, o faturamento saltou de R$ 19 milhões para R$ 111 milhões. Este ano a projeção é alcançar R$ 120 milhões. O diretor financeiro e artífice da operação que fará a Altus debutar na BM&FBovespa (Bolsa de São Paulo), Fabiano Favaro, lembrou que, em uma comparação singela, o custo do recurso emprestado do Bndes é 30% mais barato, e um valor para devolver no longo prazo. “Os recursos bancaram inovação e desenvolvimento de soluções. Precisamos de financiamento compatível com esse ciclo”, justificou Favaro, citando que seus concorrentes, entre os maiores players mundiais do setor, têm acesso a capital mais barato.
Com a abertura de capital no programa Bovespa Mais prevista para o segundo semestre, Favaro aposta em diversificação de fontes de financiamento. Além dos empreendedores, que fundaram o negócio há 30 anos, e dos recursos tomados do banco de fomento e de linhas de apoio à inovação, a empresa se prepara para  experimentar o gosto de ter novos acionistas.
Executivo e acionista de uma das companhias que mais surfa a onda do efeito dos desencaixes ascendentes do banco estatal, o vice-presidente da Marcopolo, José Antônio Martins, informou que o crédito dita o ritmo de encomendas.
“O Bndes para transportes e máquinas operatrizes é o melhor vendedor”, definiu Martins, recordando que a linha do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) Finame tem juros anuais de 3% (até junho) e 3,5% (até dezembro), mas que estavam em 2,5% em 2012. “Se tirar isso, derruba o mercado. Um cliente comprou 250 ônibus, 10% da nossa produção mensal”, contabilizou o executivo, que vincula a manutenção do consumo a mais investimento. Presidente da Associação do Aço do RS (AARS), Martins apontou que as linhas animaram o setor, que registrou alta de quase 1.000% no crédito no Estado.

Fonte: Bndes                                                                                                         AURACEBIO PEREIRA/ARTE/JC

Financiamento vira quitute para garantir empreendimentos


Repasses ocorrem também por meio de bancos locais, como Banrisul, Badesul e BRDE.

JONATHAN HECKLER/JC

Antes de incentivo fiscal ou terreno, vem a perspectiva de financiamento, cuja fonte mais cobiçada é o caixa do banco federal. A constatação é do coordenador da Sala do Investidor da Secretaria Estadual de Desenvolvimento de Promoção ao Investimento (SDPI), Taylor Favero, sobre o comportamento que domina empresas dispostas a investir em unidades ou expandir operações no Estado. “Quase 100% dos financiamentos são do Bndes, com raras exceções”, atesta Favero, citando que os repasses ocorrem também por meio de bancos locais, como Banrisul, Badesul e Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). “Nenhuma empresa vai querer usar dinheiro do caixa. Crédito de longo prazo não é problema.”
“Pesquisas que fazemos com as empresas comprovam que a oferta de financiamento decide o empreendimento”, arremata o coordenador. O organismo elege um gerente que cuidará do projeto, e uma das missões é abrir caminho nos bancos. O balanço das negociações da Sala do Investidor, canal oficial da atração de empreendimentos do governo estadual desde 2011, não rastreia quantos e nem a dimensão dos investimentos que contam com aportes do Bndes ou pretendem buscá-los. O saldo de 255 operações em carteira, sendo que 227 são iniciativas confirmadas e em execução e outras 28 estão em avaliação, soma R$ 23,1 bilhões e mais de 52 mil empregos diretos.
A checagem da carteira em negociação – R$ 21,1 bilhões – indica que muitos empreendimentos, principalmente em geração de energia e que receberam ou terão crédito do banco, não estão listados. Portanto, tudo indica que a estimativa de irrigação de investimentos locais seja muito superior ao que Favero e sua equipe ostentam. Do estoque, apenas 12 iniciativas, que envolvem R$ 515,6 milhões, estão concluídas, ou seja, em andamento ou operação. 
A fartura de recursos do banco federal gerou certa competição entre quem repassa mais. O banco comercial gaúcho está em quarto lugar, atrás do Banco do Brasil, do Bradesco e da Caixa Econômica Federal, informa o superintendente da unidade de desenvolvimento do Banrisul, Ricardo Bidesi. A escalada é forte, com R$ 351,2 milhões repassados em 2010; R$ 373,7 milhões, em 2011; e R$ 681,5 milhões no ano passado. O volume de operações evolui mais forte, com alta de 220%.
As dez mil unidades de cartão Bndes, voltado às médias, pequenas e microempresas (MPMEs), puxa o desempenho local. Bidesi contabiliza que os empréstimos lastreados pela grife federal somam R$ 1,7 bilhão na carteira de crédito da instituição no primeiro trimestre de 2013, saldo que era de R$ 1 bilhão há três anos. “Nosso limite prevê empresar três vezes mais”, avisa o superintendente.

Fonte: Quantitas                                                                                                         AURACEBIO PEREIRA/ARTE/JC

Aportes privados precisam ser elevados

A explosão dos aportes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) carimba uma mudança no perfil das fontes de financiamento da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que reflete o fôlego de investimentos em melhorias na capacidade produtiva da economia de um país. No Brasil, a FBCF somou R$ 268,1 bilhões em 2003, sendo R$ 44,2 bilhões bancados pelo setor público (16%) e R$ 223,9 bilhões pelo ramo privado. Nove anos depois, em 2012, a cifra global ficou em R$ 776,5 bilhões, com R$ 198,1 bilhões (25,5%) do caixa público (com forte peso do Bndes, que somou R$ 155 bilhões) e R$ 578,4 bilhões do sistema privado financeiro e de capital próprio das empresas.
Especialistas citam que o volume é ainda acanhado e que o desafio é elevar os aportes, que ficaram em 18,1% do PIB no ano passado, quando a meta mínima deveria ser de 25%. “O banco federal faz a sua parte, mas o ideal seria criar um ambiente para o segmento privado ampliar a sua fatia”, adverte Rogério Braga, diretor de gestão de recursos da Quantitas. “O Bndes não tem de se recolher, mas o governo deveria dar mais estabilidade para aumentar o investimento de outras instituições e das empresas.” O analista aponta fatores como incertezas sobre o rumo de variáveis macroeconômicas (inflação, câmbio e juros) e sobre condições tributárias e de infraestrutura entre elementos que pesam, e muito, nas decisões dos bancos e de investidores em desaguar mais recursos em operações de longo prazo. 
Braga cita o emergente mercado de emissão de debêntures, que viraram ingrediente para sustentar as futuras concessões de estradas, ferrovias, portos e aeroportos, dentro do programa lançado em 2012 pela presidente da República, Dilma Rousseff. “Dos R$ 73 bilhões emitidos em debêntures em 2012, apenas R$ 26,8 bilhões vieram ao mercado de capitais e não ficaram nas mãos dos bancos. O financiamento de R$ 155 bilhões do Bndes foi muito superior ao mercado de capitais”, contrastou Braga. Para o diretor da Quantitas, se o ambiente fosse mais estável, parte da cifra de investidores que prefere fundos de renda fixa de curto prazo poderia irrigar o cardápio de recursos para prazo longo.
Apesar dos argumentos do especialista, tudo indica que o banco de fomento manterá  o ritmo, já que o patrimônio lastreia operações de até R$ 260 bilhões. A direção da instituição avalia ainda o aumento de capital, via Tesouro Nacional, para turbinar seu cacife. O diretor-técnico da Fundação de Economia e Estatística (FEE), o economista André Scherer, considera que a atuação supre carência de financiamento com custo mais adequado, principalmente para obras de infraestrutura e elevação da competitividade produtiva. Scherer lembra que as taxas de juros só recuaram a níveis mais aceitáveis a partir de 2011. “Isso cria condições para mais financiamento de longo prazo e um mercado de capitais mais eficiente. Mas não é para hoje”, previne o diretor-técnico.
O impacto dos repasses do banco para a economia gaúcha ainda não foi dimensionado. A equipe técnica do PIB da FEE está revisando a matriz insumo-produto (base de dados para a riqueza gerada pela atividade) está sofrendo revisão e captará os movimentos dos últimos anos, tanto de ampliação de fábricas e outros fatores de produção de bens e serviços, como de implantação de novas unidades. “Teremos como avaliar investimentos, empregos e arrecadação fiscal”, adianta Scherer.
A expectativa é aplicar a nova base em 2014. O diretor-técnico da fundação destaca que as iniciativas do setor privado, que capta recurso do setor financeiro, são uma parte da conta. A ação da Sala do Investidor, ligada à área de desenvolvimento do Estado, é outra estratégia acertada, cita. “Mas a melhoria da infraestrutura e maior impulso à inserção de produtores locais no mercado consumidor do Mercosul são essenciais”, arremata. A reversão da queda de 1,8% do PIB gaúcho em 2012 depende destas condições.

Fonte: Jornal do Comércio

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