Demandas agrícolas desafiam meio ambiente

Fonte: BRASIL ECONÔMICO  | TEXTOS LUCIANO MARTINS COSTA

SUSTENTABILIDADE

O dilema afeta toda a indústria de mineração,mas é na extração de fosfato e potássio que se concentram os maiores problemas

A indústria de fertilizantes representa um ponto de inflexão no processo de desenvolvimento do Brasil.

Dono das maiores extensões de terras agriculturáveis do mundo e, ao mesmo tempo, responsável pela missão de preservar o maior conjunto de bens naturais do planeta, o país se vê diante da necessidade de aumentar sua produção agrícola sem permitir que a expansão das áreas de exploração represente uma pressão maior sobre as reservas do patrimônio ambiental.

Há quem defenda como única solução aceitável a opção dos nutrientes biológicos e do manejo natural de corretores do solo, mas tais alternativas ainda não são aplicáveis em larga escala, no nível do grande agronegócio. O engenheiro agrônomo José Carlos Pedreira de Freitas, diretor da Hecta, consultoria de agronegócios e sustentabilidde e diretor-adjunto da Câmara Setorial de Máquinas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) -observa que a agricultura brasileira precisa se livrar do "vício de insumos químicos".

Mas reconhece que o caminho nesse sentido ainda está repleto de desafios.

Pedreira lembra que nesse setor se destaca o conjunto de produtos sob a marca Native, do grupo Balbo, que tem sede na cidade paulista de Sertãozinho. Líder na produção de alimentos orgânicos, a Native já se expandiu para além do circuito alternativo e se consolida no mercado internacional com uma receita radical, que inclui a utilização em larga escala de adubos verdes, com o aproveitamento racional dos efluentes orgânicos do manejo da cana e da produção agroindustrial. A empresa possui na Fazenda São Francisco, localizada no Oeste paulista, 15 mil hectares certificados para a produção de cana por manejo orgânico.

Mas o consultor lembra que se trata de um caso especial de produção agrícola com adubação exclusivamente natural, sem utilização de produtos sintéticos. "A experimentação desses novos paradigmas por enquanto está restrita à produção em pequena escala, na AGRICULTURA FAMILIAR, onde o manejo está mais próximo dos operadores, que são o proprietário e seus familiares ou agregados", observa, lembrando que o agronegócio empresarial não tem essa flexibilidade e não pode mudar o processo ao longo do ciclo produtivo.

Polêmica persiste

Os especialistas estão longe da unanimidade. Enquanto os entusiastas da economia verde asseguram que já é possível obter alta produtividade com métodos orgânicos, muitos ainda entendem que por longos anos o agronegócio vai depender dos fertilizantes de origem mineral. Para as duas vertentes, porém, há um ponto de convergência: a tese de que o eixo dessa questão é o aumento da produtividade sem a necessidade de expandir indefinidamente as áreas de plantio. Trata-se, mais ou menos, do mesmo dilema que cerca as mudanças nos setores de combustíveis e indústria química: até quando o mundo será dependente do petróleo? Nesse sentido, a indústria de fertilizantes procura se encaixar nos novos paradigmas.

O próprio mercado já não admite as crateras erodidas, os rios contaminados por produtos químicos e as comunidades abandonadas à própria má sorte. Imagens como as de Serra Pelada não são mais aceitas e o fato de a maioria das grandes empresas do setor serem empresas de capital aberto, submetidas ao conceito de risco do mercado de ações, faz com que, além do resultado financeiro, elas tenham que oferecer aos investidores demonstrativos transparentes de responsabilidade ambiental e social.

Desafios principais

O dilema afeta toda a indústria de mineração, mas é principalmente na extração de fosfato e potássio, matérias-primas da maioria dos fertilizantes, que o setor cruza seus desafios com os da agricultura. Alguns números são suficientes para ilustrar a importância dos insumos químicos na produção rural: segundo dados do Ministério da Agricultura, para se obter uma produtividade de 6 mil quilos por hectare na cultura do milho, por exemplo, é necessária a absorção de 136 quilos de nitrogênio, 28 quilos de fosfato e 39 quilos de potássio.

As demandas da indústria de fertilizantes representam mais do que um posicionamento setorial. Elas estão relacionadas também com as chances de o Brasil se consolidar entre as maiores economias do mundo, com a contribuição da produção rural. O setor investe forte para fugir da dependência de importações, e as atuais conversações com o governo sobre flexibilização de royalties pode ser o começo de uma nova etapa rumo à sustentabilidade.

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Segundo o Ministério da Agricultura, para obter produtividade de 6 mil quilos por hectare na cultura do milho são necessários 136 kg de nitrogênio, 28 kg de fosfato e 39 kg de potássio

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