Demanda mundial por suco de laranja volta ao patamar dos anos 1980

 

Não é novidade que o inabalável aumento da concorrência de bebidas mais baratas tem provocado reflexos amargos no mercado global de suco de laranja nas últimas duas décadas. Também tem sido regra que, em anos de turbulência econômica, a situação costuma piorar. Mas, ainda assim, o comportamento da demanda pela commodity em 2015 superou as piores expectativas.

Conforme estudo recém-concluído pelo Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing e Estratégia (Markestrat), com sede em Ribeirão Preto (SP), o consumo nos 40 principais mercados para o suco de laranja no mundo, que representam mais de 95% do total, somou 1,938 milhão de toneladas, 5,3% menos que em 2014. Além de ter sido a sexta queda consecutiva, foi a 11ª retração anual desde 2003, início da série histórica do Markestrat, baseada em dados da indústria de suco e de fontes como Euromonitor, Nielsen, USDA, Tetrapak e Planet Retail, entre outros.

Mais que isso: com a nova redução, a barreira das 2 milhões de toneladas foi finalmente rompida, o que jogou a demanda por suco de laranja para os níveis do início da década de 1980, antes até de o Brasil ter se consolidado como maior exportador mundial do produto, seja em sua forma concentrada e congelada (FCOJ, na sigla em inglês) ou pronto para beber (NFC). Isso apesar de as estatísticas levarem em conta todas as formas e teores de uso da bebida, dos "sucos 100%" a águas com sabor.

"De 2005 a 2015, quando a demanda caiu quase 20%, a população mundial cresceu 12%, a renda per capita cresceu, em média, 39% e o desemprego recuou de 7% para 5,6%. Temos, portanto, um problema sério. Nos países desenvolvidos, os consumidores tradicionais estão envelhecendo e as novas gerações têm preferido outras bebidas, enquanto nos emergentes o preço ainda é um obstáculo", diz Marcos Fava Neves, conselheiro do Markestrat e professor titular no campus de Ribeirão Preto da FEA/USP.

Os números não mentem. Na América do Norte, por exemplo, o consumo total, conforme o estudo do Markestrat, diminuiu 10% de 2014 para 2015, para 725 mil toneladas, 35% menos que em 2005. E a queda foi puxada pelos Estados Unidos, ainda o principal mercado global para o suco de laranja. Foram apenas 613 mil toneladas – até 2004 eram mais de 1 milhão por ano -, 11% menos que no ano anterior e queda de 38% em relação a 2015.

"Em meio à mudança de perfil do público-alvo do suco de laranja, os recursos que os fabricantes americanos usam no marketing da bebida desabaram. Isso aconteceu porque o orçamento para promoções é atrelado ao volume de produção de laranja, e esse volume está em forte queda", diz Fava Neves. Esse encolhimento, que deverá manter a atual colheita da Flórida no mais baixo patamar em mais de 50 anos, é provocado sobretudo pelo avanço da doença conhecida como greening. O Estado americano abriga o segundo maior parque citrícola do planeta. Só perde para o de São Paulo.

Segundo o trabalho, na Europa as vendas também permanecem claudicantes. Chegaram a 707 mil toneladas em 2015, com quedas de 4% na comparação com 2014 e de 19% sobre 2005. No continente, os destaques negativos foram Alemanha e França, onde as demandas só são menores do que a americana – 148 mil e 141 mil toneladas, respectivamente.

Tão ou mais preocupante que isso, porém, foi a retração do consumo na Ásia – 2%, para 237 mil toneladas. E não é preciso uma lupa para perceber que a China se tornou uma decepção em 2015. Com a desaceleração do crescimento econômico do país, o volume caiu 6%, para 132 mil toneladas, e interrompeu uma curva ascendente que vinha saltando aos olhos, com aumentos de 13% em 2006 e 2007, 25% em 2010 e 10% em 2013, que ajudaram a catapultar o país à quarta colocação no ranking dos maiores países consumidores.

Nesse contexto, Fava Neves lembra que, se as cotações internacionais do suco de laranja estão atraentes nos últimos meses, é devido à redução da oferta, que em São Paulo também está menor em decorrência de intempéries. Mas quando os preços estão atraentes graças a problemas dessa ordem, é bom repensar estratégias.

Por Fernando Lopes | De São Paulo

Fonte : Valor

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