Demanda da China por soja americana frustra expectativa

Bloomberg

Novos anúncios da venda de grandes lotes de soja dos EUA para a China vão depender da queda da tarifa de 25%

Apesar de a China ter voltado a realizar compras de grandes volumes de soja americana, os investidores não reagiram com o otimismo esperado. Na quinta-feira, foi confirmada a venda de um lote com 1,13 milhão de toneladas ao gigante asiático, e no dia seguinte foram mais 300 mil toneladas.

Mesmo assim, os contratos futuros do grão com vencimento em março caíram 6,75 centavos de dólar (0,73%) na bolsa de Chicago, e encerraram a sessão de sexta-feira a US$ 9,1375 o bushel. No acumulado da semana passada, os contratos da oleaginosa caíram 1,6%.

Colaborou para a queda justamente a decepção com o volume de compras efetivado pela China, disse Luiz Fernando Gutierrez Roque, analista da consultoria Safras & Mercado. Segundo Vinícius Xavier, analista da INTL FCStone, ainda falta um fator mais concreto para que as cotações de soja apresentem recuperação maior na bolsa de Chicago. "Ainda temos a sobretaxa [da China, de 25%]. O Donald Trump fala muita coisa, mas vemos poucos atos", disse o analista.

Desde que o presidente dos Estados Unidos e Xi Jinping, o mandatário chinês, anunciaram uma trégua na guerra comercial entre os dois países, o mercado vem trabalhando com a expectativa de que a China poderia comprar no curto prazo de 5 milhões e 8 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos, aliviando o excedente de estoques americanos.

Dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) mostram que, desde o início da safra 2018/19, em 1º de setembro, até 6 de dezembro, foram vendidas apenas 340 mil toneladas de soja dos EUA à China. No mesmo período de 2017, foram 17 milhões de toneladas.

O ritmo lento atual das vendas, motivado pela taxação imposta por Pequim em meio às disputas com Washington, ampliou consideravelmente os estoques americanos. E o último relatório do USDA estimou que as reservas alcançarão 24,5 milhões de toneladas no fim da atual safra (2018/19). É mais que o dobro do volume estocado no fim de 2017/18.

Embora tenham decepcionado os investidores na bolsa de Chicago, as compras de soja americana pela China nos últimos dias estão em linha com a estratégia de suprimento do país asiático. O Brasil, seu principal fornecedor, está na entressafra, enquanto há soja em abundância, e mais barata, nos Estados Unidos.

"O Brasil nunca poderia fornecer toda a soja que a China precisa. Então, em última análise, a China foi levada de volta à soja dos EUA. E acho que é conveniente para eles fazerem isso agora", afirmou o analista do banco ING Bank, Robert Carnell, à BBC. Entre janeiro e outubro deste ano, as exportações brasileiras de soja à China aumentaram 20,4% ante igual período do ano passado – somaram 60,1 milhões de toneladas, o equivalente a 80,5% do total exportado pelos chineses.

Ocorre que, no momento, os preços da soja americana estão competitivos mesmo com os 25% de sobretaxa aplicada pela China. No mesmo período do ano passado, a soja era negociada por volta de US$ 9,7875 por bushel em Chicago – 7% mais que o atual nível.

No médio prazo, porém, os riscos de queda para os preços soja persistem. Se um acordo comercial definitivo entre China e EUA ocorrer apenas no primeiro bimestre, os preços poderão cair mais. Isso porque a safra brasileira, estimada em 120,1 milhões de toneladas, estará saindo dos campos apta a disputar, com vantagem, o mercado chinês

Por Kauanna Navarro e Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte: Valor

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