Defensivos usados em lavouras de soja ameaçam abelhas no RS

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Análises de laboratório identificam inseticidas nas abelhas mortas: ‘causa mortis’

Os apicultores do Rio Grande do Sul estão preocupados com a expansão da soja no Estado. Mais lavouras significam também mais pulverização de produtos químicos sobre as plantas, o que pode ser uma ameaça para as colmeias.

Na safra 2016/17, quando a colheita gaúcha de soja alcançou estimadas 18,7 milhões de toneladas, 15,5% mais que no ciclo anterior, os casos de mortandade de abelhas subiram para o patamar de milhares. Análises de laboratório identificaram como causa mortis, em todos os casos, a presença de inseticidas usados na fase de floração da soja.

A morte de abelhas acendeu o alarme na Câmara Setorial de Apicultura e Meliponicultura, vinculada à Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul. Nadilson Roberto Ferreira, agrônomo com PhD em polinização e coordenador da câmara setorial, estima que a contaminação por defensivos agrícolas tenha acometido até 40% das colmeias nos últimos três anos no Estado, que é o maior produtor brasileiro de mel.

Segundo a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o NSF Bioensaios, o único laboratório privado habilitado para essas análises no Estado, as abelhas analisadas apresentavam doses elevadas de fipronil, inseticida para controle de percevejos e por vezes misturado a dissecantes que combatem formigas. Houve ainda registros de neonicoticóides, inseticida derivado da nicotina, cujo impacto nocivo às abelhas é questionado na UE.

"A situação é crítica, e vem piorando desde 2012", diz Ferreira.

Com quase 30 mil apicultores e meliponicultores (criadores de abelhas sem ferrão) gaúchos, o setor teme mais do que o prejuízo com a morte de suas colmeias: o pior temor é de que os defensivos acabem eventualmente contaminando a produção de mel, o que levaria a um embargo por parte dos países importadores do mel brasileiro.

A criação de abelhas está concentrada no oeste do Estado. As cidades de São Gabriel, Santa Maria e entorno são responsáveis pelo grosso da produção, que varia de 8 mil a 10 mil toneladas ao ano. É ali, também, que estão os Pampas gaúchos, bioma que vem sendo rapidamente convertido em soja.

Para os especialistas, há uma correlação direta entre o aumento no uso de agroquímicos na lavoura e a morte de abelhas. O clima favorável nesta safra animou o produtor de soja. Mas isso, em geral, requer mais pulverizações para evitar a lagarta e outros insetos que comem a folha assim que ela brota do chão.

Ao mesmo tempo, a amostragem de abelhas mortas dobrou de 10 para 20 neste ciclo. Há dois anos, eram duas, no máximo três.

"O problema está na soja. Vai glifosato, fipronil, que é muito tóxico para a abelha", diz Aldo Machado, vice-presidente da Federação Gaúcha de Apicultura e presidente da cooperativa Cooapampa.

Se o número de amostras para análise subiu, nas pequenas propriedades que caracterizam a apicultura a percepção de perdas com colmeias chega aos milhares.

Atílio Cassol sintetiza esse drama: nesta safra de soja ele perdeu todas as suas 26 caixas, cada uma com 60 mil a 80 mil abelhas. "No domingo estavam bem. Na terça, foram todas contaminadas, e perdi todo o mel", diz, relembrando o episódio ocorrido no começo do ano. Cassol deu queixa na polícia e enviou abelhas mortas para o NSF Bioensaios. O resultado foi positivo para inseticidas.

Aplicado diretamente na abelha durante seu trabalho de coleta na polinização das lavouras ou carregado pelo vento, o agroquímico mata em poucas horas. As que recebem uma sub-dosagem morrem de seus efeitos. Tornam-se vulneráveis a doenças ou morrem de fraqueza.

"A recomendação é para pulverização noturna, mas ninguém faz isso", diz Andrea Machado, coordenador do setor de resíduos e contaminantes do NSF Bioensaios.

Apesar dessas constatações, especialistas pedem cautela nas conclusões, uma vez que outros fatores influenciam a morte de colmeias. "Os sinais lembram bastante o efeito de agrotóxicos, mas há também a fome que mata as abelhas", diz Betina Blochtein, da PUC do Rio Grande do Sul. A conversão da área natural para monoculturas retira as opções de local para que as abelhas construam suas colmeias e reduz a oferta e a qualidade do alimento, afirma ela.

O número de pedidos de análise de abelhas mortas também está associado ao conhecimento maior do apicultor, diz Aroni Sattler, professor de apicultura do curso da UFRGS, após palestras de esclarecimento da Câmara Setorial. De qualquer forma, o receio ainda é grande. A falta de números exatos sobre mortandade de abelhas deriva ainda da alta informalidade no setor, o que dificulta denúncias de contaminação, e do medo de represálias dos agricultores. "Muitas abelhas estão morrendo e não há notificação", diz Sattler.

 

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor

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