Da porteira para dentro

Uma das armas da cadeia ori-zícola para tentar abrir novos mercados externos, apesar da concorrência predatória dos norte-americanos, e ampliar o consumo dentro de casa, é a reconhecida qualidade do grão nacional.

Essa excelência está materializada em características como cozinhar soltinho, não ficar com o centro duro, ter sabor agradável, coloração clara e poder ser reaquecido sem perder as demais propriedades começa nas lavouras do Sul do Brasil, que na safra 2019-2020 cobriram 934 mil hectares em 128 municípios gaúchos. Somados, eles respondem por 70% da produção brasileira de arroz.

Conforme os dados do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), esta foi a menor área plantada nas últimas 12 safras, porém, o alto nível de tecnificação e qualificação dos produtores gaúchos manteve a produtividade em alta. Na Zona Sul, onde estão seis dos dez municípios com maior produtividade do Estado, a produção por hectare chegou a 10.006 kg em Rio Grande, 9.700 kg no Chuí e 9.688 kg em Capão do Leão.

Produtor gaúcho está cada vez mais profissional e tem adotado métodos qualificados de manejo das lavouras como a integração lavoura-pecuária Nas duas safras anteriores, a média por hectare no Rio Grande do Sul havia sido de 7508 kg/ha (2018-2019) e 7.949 kg/ha (20172018), enquanto os melhores resultados da Zona Sul ficaram na casa dos 8.100 kg/ha.

O agrônomo André Matos, que há seis anos coordena a regional Zona Sul do Irga, responsável por atender 11 municípios que concentram a segunda maior área de lavouras de arroz do Estado, explica que o produtor gaúcho está cada vez mais técnico e tem adotado métodos mais qualificados de manejo das lavouras como a rotação de cultura com a soja ou a integração lavoura-pecuária.

Na década passada a rotação com a soja ocupava 11 mil hectares dos campos gaúchos semeados com arroz, este ano foram 340 mil hectares, conforme os dados do Irga. "Até a década passada, o plantio de arroz em áreas de pastagens era comum nas pesquisas, mas em áreas comerciais quase não se via; hoje, somente na Zona Sul, já ocupam 20% da área plantada", confirma Matos.

Tanto a pesquisa quanto a prática mostram que a sucessão de culturas combate ervas daninhas como o arroz vermelho, reduz a degradação e melhora a fertilidade do solo, o que acaba aumentando a produtividade e a qualidade do grão. Além disso, a opção pela soja possibilita ao produtor diversificar sua renda, que conforme lideranças do setor está em queda apesar da boa colheita e do mercado aquecido. Isso, no entanto, traz um risco embutido.

Apesar de recomendar a integração de culturas como sistema de produção adequado, o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Alexandre Velho, admite que a baixa rentabilidade do arroz frente a soja pode seduzir agricultores.

"Estamos há três ou quatro anos com preços abaixo do custo de produção, o que torna o arroz desinteressante para muitos e aumenta a migração para a soja. Hoje, estima-se que 30% da área de arroz está indo para a soja", relata.

Os custos citados por Velho são compostos, conforme metodologia do Irga, por cinco itens: despesas de custeio da lavoura (fertilizantes, sementes, etc.), outras despesas (fretes, secagens, etc.) e despesas financeiras, depreciação e renda dos fatores (pagamento da terra arrendada, etc.).

Nesta safra, o custo total ficou em R$ 64,70 por cada saco de 50kg, ou seja, no momento de maior valorização do produto, sobraram R$ 2,30 por saco para o produtor.

Levantamento feito pelo Irga revela um aumento de 13,34% dos custos por hectare em relação à safra passada. Os itens que mais subiram estão relacionados ao custeio de lavoura, e foram aguador (55%), aviação (53%) e água (51,7%).

O dólar alto que favoreceu a cadeia também causou estrago no bolso dos agricultores ao puxar para cima os gastos com sementes e agroquímicos – com a desvalorização do real, a conta ficou salgada. O custo das sementes, por exemplo, subiu de R$ 179,50 por hectare no período 20182019 para R$ 231,41 por hectare na safra recém-encerrada, o que representa 28,9% de aumento.

Já os investimentos em agroquímicos sofreram um incremento de 20,7%, com o custo por hectare subindo de R$ 1.143,18 para R$ 1.380, 61. "Este cenário obriga a ter gestão e profissionalismo, o produtor precisa lembrar que todos os negócios passaram por mudanças nas últimas décadas e se reinventar", pondera Velho.

Fonte: Jornal do Comércio

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