Crônica de uma crise fabricada

A indústria de sucos brasileira está convivendo com informações conflitantes. Com relação às exportações, as estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, sigla em inglês), revistas em julho, indicam um crescimento de 1,65% para as exportações brasileiras de suco, enquanto o relatório da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBr) aponta uma contração de 15% nas exportações. Com relação aos estoques, enquanto o USDA aponta para um estoque de 240 mil toneladas no início da safra 2012/13, a indústria fala em 555 mil toneladas. Uma diferença de 315 mil toneladas, o que corresponde à quantidade de fruta que a indústria ameaça não colher! Em quem acreditar?

É preciso colocar a questão da contração da demanda nos devidos termos. Há dois grandes mercados para o suco de laranja: os EUA, abastecidos pela Flórida, e os demais, abastecidos pelo Brasil.

A grande contração é verificada no mercado americano. Porém, maior do que a contração da demanda, é a contração da produção, fato que nem sempre é explicado pela indústria de suco de laranja. Comparando-se os dados do USDA entre a safra 2007/08 e as previsões para 2012/13, vemos que a produção mundial deverá contrair-se 15%, enquanto a demanda, se excluirmos os EUA, cujo consumo deverá decrescer 22%, nos demais mercados abastecidos pelo Brasil terá uma redução estimada em 12,4% no período. Isto é comprovado pelo aumento de preços do suco.

O preço da tonelada do suco de laranja subiu de US$ 1.600 em 2009/10 para US$ 2.700 nos últimos 12 meses

O suco de laranja concentrado congelado cujo preço médio por tonelada foi de US$ 1.600 na safra 2009/10, aumentou para US$ 2.500 na safra 2010/11 e para US$ 2.694 na safra 2011/12. Nos últimos 12 meses, o suco de laranja manteve-se em US$ 2.700 por tonelada em média.

Além do problema da contração de demanda nos EUA, há a questão do carbendazim, defensivo que, embora aprovado em outros mercados, está proibido nos EUA desde 2009 e foi detectado no suco brasileiro, provocando a rejeição de vários lotes destinados para aquele mercado e comprometendo a imagem do produto. Esse fato, largamente divulgado e que decorreu do fato de a indústria não alertar os produtores para que não usassem o defensivo e em evitar a aplicação dele em seus próprios pomares, foi usado por ela como pretexto para deixar de contratar grande parte dessa safra.

Apesar disso, as exportações do Brasil para o Nafta, cujo maior mercado é o dos EUA, cresceram 36,1% na safra passada em relação à safra anterior. Isso comprova que os EUA necessitam do suco brasileiro para melhorar a qualidade do suco lá produzido.

Com relação ao futuro do setor, também contrariando o discurso das esmagadoras, um estudo do Departamento de Citros da Flórida projeta para o período de 2010 a 2011 a 2030 a 2031 um crescimento da demanda dos mercados abastecidos pelo Brasil de 3% ao ano, enquanto a produção brasileira deverá crescer 1,9% ao ano indicando uma perda de participação no mercado mundial de suco de laranja.

A continuidade do investimento em ampliação da produção de laranjas por parte das indústrias, o aumento do investimento em logística, o investimento das grandes engarrafadoras no mercado de sucos e a preocupação demonstrada pela Coca-Cola com a falta de interesse dos produtores em ampliar seus pomares desmentem as informações pessimistas a respeito do futuro do setor.

Matt Stroshane/Bloomberg

Ian McLaughlin, o principal executivo da área de sucos da Coca-Cola, manifestou no World Juice 2011, em Madri, a preocupação da empresa com a não retomada dos plantios dos pomares de citros pelos agricultores, o que ele considerou a maior ameaça ao futuro do mercado de sucos. "O aquecimento global está afetando o suprimento de matéria-prima e, em algumas áreas, está ameaçando o futuro do setor. Em particular, o aumento das doenças é preocupante porque é uma barreira ao crescimento da produção." Acrescentou que a sua empresa vai atuar para incentivar a retomada da produção. É preciso restabelecer o equilíbrio e a concorrência no setor e reverter à verticalização.

A concentração, a verticalização e a cartelização do setor deram às esmagadoras um brutal poder econômico, político e de mercado, que lhes tem dado condições de impor suas regras.

Uma enorme barreira de entrada para o restabelecimento da concorrência é o sistema de logística de distribuição de suco a granel. O problema poderia ser reduzido se as processadoras fossem "incentivadas" a compartilhá-lo. É preciso também reverter o processo de verticalização, proibindo ou limitando o plantio dos pomares por parte das processadoras.

É inconcebível que o Brasil, pela posição que ocupa no mercado de sucos, não invista no marketing do produto e na ampliação do mercado. As qualidades nutricionais, os benefícios para a saúde, os aspectos organolépticos: cor atraente, sabor e aroma que não enjoam, precisa ser realçado e questões como conteúdo calórico precisa ser esclarecido.

Acreditamos que um Consecitrus (Conselho dos Produtores de Laranja e das Indústrias de Suco de Laranja), nos moldes preconizados pela Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), pode assegurar uma remuneração justa aos citricultores, compatível com os seus custos e riscos, assegurando-lhes renda e segurança e protegendo-os da ação predatória dos grandes grupos que atuam no agronegócio.

A solução da maior parte dessas questões está nas mãos do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que desde 1999 investiga o setor, e os citricultores precisam acompanhar com atenção o andamento desses processos, que envolvem as decisões sobre o Consecitrus, sobre as novas propostas de concentração do setor e a fiscalização do cumprimento das medidas impostas no processo de fusão da Citrosuco-Citrovita.

É preciso também instituir um plano de recuperação dos pomares dos produtores independentes das regiões citrícolas tradicionais, investir na busca de soluções para os graves problemas fitossanitários, implementar uma política agrícola que inclua mecanismos que protejam a renda dos citricultores minimizando os riscos climáticos, fitossanitários e de mercado. Nos setores exportadores, é preciso impedir o subfaturamento das exportações, que, além de provocar a transferência de renda para o exterior, causando enormes perdas aos produtores, aumenta as distorções e incentiva a corrupção.

Flávio de Carvalho Pinto Viegas é presidente da Associtrus.

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Fonte: Valor | Por Flávio C. P. Viegas

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