Crise também abre oportunidades para algodão nacional

A sobretaxa de 25% para a entrada do algodão americano na China pode elevar a demanda pela fibra e favorecer as exportações brasileiras, segundo analistas.

"A China é forte consumidora do algodão dos EUA, e há fibra com a mesma qualidade no Brasil e na Austrália", afirmou Victor Ikeda, analista do Rabobank. Em 2017, a China importou 526 mil toneladas de algodão dos EUA e 83 mil toneladas da fibra brasileira.

De acordo com o Vitor Andrioli, analista da INTL FCStone, a tendência natural é que a China aumentasse as compras de algodão da Índia e da Austrália – que inclusive já iniciou a colheita – devido à proximidade geográfica. No entanto, há limites que podem beneficiar o Brasil.

"A qualidade do algodão da Índia e do leste asiático como um todo é menor que a dos EUA", disse Ikeda, do Rabobank. De acordo com ele, a demanda prioritária seria pela produção australiana. "Mas as exportações por ali também têm um limite". Segundo o USDA, a Austrália deve produzir 1 milhão de toneladas de algodão em 2017/18 e exportar 958 mil toneladas, enquanto o Brasil produzirá 1,7 milhão de toneladas e exportar 914 mil toneladas.

Outro ponto que não pode ser desconsiderado é que a China ainda tem grandes estoques de algodão – de 10,5 milhões de toneladas de acordo com o USDA, o que pode limitar o benefício eventual aos exportadores brasileiros. "Tem algodão de safra antiga, como 2012/13, mas também tem algodão de qualidade maior e é possível montar blends ", afirmou Andrioli.

Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), nem todo o excedente exportável pode ir à China. "Os exportadores brasileiros já têm contratos assumidos e que têm que ser cumpridos", disse Lígia Dutra, superintendente de relações internacionais da CNA.

Para o algodão americano, no entanto, o impacto negativo da decisão chinesa é claro. Na bolsa de Nova York, os contratos futuros da commodity com entrega em julho caíram 229 pontos ontem e fecharam a 79,72 centavos de dólar a libra-peso.

Respondendo à apreensão que imperou nas negociações de commodities, a cotação do milho também foi afetada. Os papéis com vencimento em julho recuaram 7,5 centavos em Chicago, para US$ 3,8975 o bushel. O milho americano também entrou na lista de taxação chinesa. Contudo, as importações do grão pela China são marginais. O USDA estima que somem 4 milhões de toneladas em 2017/18.

Por Kauanna Navarro e Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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