Crise afeta importações brasileiras de frutas

As frutas importadas entraram para o rol de produtos que os brasileiros estão excluindo aos poucos da lista de compras. Maçã, kiwi, pera, tangerina e damasco de outros países estão perdendo espaço nas gôndolas e nas estratégias dos importadores. Ao mesmo tempo, as exportações estão se recuperando, ainda que lentamente, da queda de 2014, puxadas pelo ganho de competitividade conferido pelo câmbio – e esse movimento tem deixado a balança do segmento perto do equilíbrio.

Considerando um grupo de mais de 20 frutas que o Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf) monitora, o total importado entre janeiro e agosto somou 271,9 mil toneladas e rendeu US$ 281,5 milhões. O volume é pouco superior à metade do que foi registrado em todo o ano passado (468,9 mil toneladas) e, mesmo com a expectativa de um aumento de ritmo até dezembro, como é normal, o segmento está pessimista. "Não sei se chegamos a 400 mil toneladas neste ano", afirma Moacyr Saraiva, presidente do Ibraf. O último ano em que as importações foram inferiores a 400 mil toneladas foi 2010.

Segundo Saraiva, o principal motivo para a redução da demanda por frutas importadas é a crise econômica, que está levando os consumidores a seus próprios "ajustes fiscais". E, nesse sentido, um dos estratagemas que os brasileiros estão lançando mão é a troca de produtos mais caros por outros mais em conta. "Deixa-se a maçã importada para dar preferência à banana nacional", diz.

As importações de pera, que lideram a lista, somaram 124,2 mil toneladas nos oito primeiros meses deste ano e ainda faltam 84 mil toneladas para alcançar o patamar de 2014. As de maçã estão ainda mais tímidas: alcançaram até agosto 31 mil toneladas, 35% do volume importado em todo o ano passado. De acordo com a analista do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Júlia Garcia, a melhor qualidade da maçã produzida no Brasil também contribuiu para a queda das importações, assim como o embargo temporário imposto à Argentina.

No caso do damasco, o resultado é ainda pior: as compras no exterior se restringiram a 13 toneladas, 7% do total de 2014. Na contramão até agora, as importações de uva chegaram a 29 mil toneladas, ou 86% do volume do ano passado, mas o período mais forte de aquisições do mercado externo já ficou para trás. Os dados foram levantados pelo Ibraf a pedido do Valor.

O desânimo em relação a uma eventual reação decorre da tendência de que mesmo nas festas de fim de ano, quando as frutas estrangeiras são bastante procuradas, a preferência deverá ser pelos produtos nacionais, por causa da recente disparada do dólar. Entre agosto e setembro, o dólar comercial subiu 15,82% em relação ao real. O reflexo deve se dar apenas no quarto trimestre, já que os contratos de importação de frutas são fechados cerca de dois meses antes do recebimento.

"Estamos bem abastecidos de mercadoria importada, mas estamos revendo os custos, porque vamos pagar mais por essa mercadoria. As margens caíram e as importações futuras serão mais prejudicadas", afirma João Antonio Benassi, diretor, em Campinas (SP), do Grupo Benassi, um dos maiores importadores e distribuidores de frutas do país. Ele estima que as importações do grupo tenham caído cerca de 10%, mas prevê que, até o fim do ano, esse percentual poderá superar 30%, sobretudo em decorrência da queda das compras de frutas desidratadas como ameixa seca, damasco e figo turco.

A atrofia das importações ocorre mesmo em meio a um aumento da pressão da oferta europeia. Desde que a Rússia decidiu dar o troco à União Europeia e impediu a entrada de produtos do bloco vizinho em seu território, passou a sobrar frutas no mercado europeu, que agora está saturado. Para lidar com esse abacaxi, muitos países da UE estão oferecendo subsídios para que os produtores e as empresas exportem as frutas excedentes. "Os subsídios vão permitir, mesmo com um dólar desfavorável, que eles coloquem no Brasil um produto relativamente competitivo", afirma o presidente do Ibraf.

Laranja, pera, maçã, pêssegos, nectarinas e algumas variedades de laranja e de tangerina sem semente produzidas em solo europeu são as mais propensas a chegarem ao mercado brasileiro por preços competitivos no mercado brasileiro, acredita Saraiva.

Essa saturação do mercado europeu também é uma má notícia para os exportadores brasileiros de frutas, que têm no continente seu maior mercado. Mesmo assim, o Ibraf estima que os embarques em 2015 deverão crescer entre 4,5% e 5%, para cerca de 685 mil toneladas – nenhuma catástrofe para uma economia em recessão, mas abaixo da média anual de 6% dos últimos 16 anos. Até agosto, as exportações do grupo de mais de 20 frutas monitorado pelo Ibraf atingiram 375,4 mil toneladas, ou US$ 290,5 milhões.

Desde que o Brasil saiu do Regime Especial de Importação da UE, em 2012, as exportações de frutas frescas do país perderam vigor. Em 2013, o aumento em relação ao ano anterior foi de 2,7%, e em 2014 houve queda de 4,1%. Para Saraiva, a única saída para deslanchar as vendas externas de forma orgânica é realizar acordos para quebrar as barreiras fitossanitárias impostas às frutas brasileiras em países como Estados Unidos, China e Cingapura.

Mas o câmbio ainda poderá ser um alento, sobretudo com o dólar no nível atual em relação ao real. Um grande exportador de limão que preferiu não se identificar conta que está chegando ao início da entressafra da fruta com 79 mil toneladas exportadas desde janeiro. Ele estima que encerrará 2015 próximo do patamar do ano passado, quando embarcou 87 mil toneladas, mas está entre os que acreditam que o dólar fará diferença no ano que vem. (Colaborou Luiz Henrique Mendes)

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *