Cresce mercado de carbono onde se negocia o ‘direito de poluir’

Bryan T. Pagel, produtor de laticínios, observava o líquido brilhante de esterco de vaca diluído que desaparecia por um ralo. Ao fundo, uma máquina decompunha o esterco e captava um subproduto chamado metano, poderoso gás do efeito estufa. Um enorme motor de escavadeira rugia enquanto queimava o metano para gerar eletricidade, mantendo-o fora da atmosfera.

O aparato de US$ 3,2 milhões também reduz os odores na Granja Ponderosa de Pagel, uma das maiores do Wisconsin. No entanto, ele não teria sido construído sem uma fonte de dinheiro surpreendente: uma iniciativa da Califórnia que investe mesmo além de suas fronteiras em projetos para combater a mudança climática. "Quando eles vieram aqui e nos disseram que queriam nos mandar cheques, ficamos entusiasmados", disse Pagel.

O programa da Califórnia é a última encarnação de um mecanismo conhecido como "cap and trade" [limite e negociação], que surgiu como uma arma básica contra o aquecimento global.

Sally Ryan/The New York Times

Máquina remove metano de esterco em indústria de produtos laticínios de Kewaunee (EUA)

Máquina remove metano de esterco em agroindústria de produtos laticínios de Kewaunee (EUA)

Da China à Noruega, governos de todo o mundo estão exigindo que as indústrias comprem autorizações que lhes permitam emitir níveis predeterminados de gases do efeito estufa. Esses níveis são constantemente reduzidos enquanto o custo das autorizações aumenta, gerando um incentivo econômico para que as empresas cortem as emissões.

O sistema incentiva as empresas a adotar tecnologia de energia mais limpa ou a investir em projetos de controle de emissões externas, como o biodigestor de metano de Pagel. O número de pessoas que vivem em lugares onde há esse sistema está próximo de um bilhão, ou 14% da população mundial.

Para Frank A. Wolak, economista da Universidade Stanford, na Califórnia, o objetivo hoje é mostrar que esse sistema funciona e incentivar sua adoção.

No entanto, na Europa, esse sistema já apresentou problemas, como oscilações de preços. E não há evidências de que ele realmente possa solucionar o problema das emissões.

"Algo precisa ser feito", disse Myles R. Allen, importante cientista climático britânico, da Universidade de Oxford. "Mas eu acho que o sistema que existe hoje é ineficaz."

Na última década, os créditos de carbono tornaram-se uma commodity. A empresa Thomson Reuters Point Carbon calcula que autorizações representando mais de 9 bilhões de toneladas de emissões ?serão negociadas neste ano, com um valor de transações de quase US$ 90 bilhões.

O Sistema Europeu de Negociação de Emissões, que entrou em operação em 2005, passou a ser considerado um estudo de caso do que pode dar errado com um sistema semelhante.

No início, os reguladores confiaram que as empresas lhes diriam quanto gases estufa estavam emitindo. Como esses números seriam usados para definir o limite inicial de emissões, as companhias obviamente exageraram.

Em 2006, quando finalmente ficou claro que elas haviam feito isso, o preço das autorizações despencou em questão de horas.

Então, justamente quando a Europa endurecia suas regras, veio a crise financeira global de 2008 e 2009. Os governos continuaram gerando autorizações para emissão de carbono mesmo com o declínio da produção. Os preços do carbono caíram novamente.

Recentemente, a União Europeia adotou mudanças que firmaram os preços. Mas, a pouco mais de US$ 7 por tonelada de dióxido de carbono, eles ainda estão muito abaixo de US$ 30, nível que os analistas consideram necessário para incentivar o investimento em energia limpa.

A meta definida pela União Europeia de reduzir as emissões em 20% até 2020 provavelmente será alcançada. Mas diversos estudos sugerem que isso é menos uma consequência do mercado de carbono e mais da fraqueza econômica, assim como de subsídios para a energia renovável.

"Mesmo estando em condições de cumprir a meta de emissões para 2020, será muito desafiador alcançar as metas europeias de longo prazo", disse Stig Schjolset, principal analista de mercados de carbono na Thomson Reuters Point Carbon em Oslo, Noruega. "Para isso, é necessário um preço do carbono mais alto."

A Califórnia, que iniciou seu sistema de "cap and trade" em 2013, tomou medidas para evitar as variações selvagens de preços e passou anos obtendo dados precisos de emissões. O Estado estabeleceu preços mínimo e máximo para suas autorizações. O preço até agora foi altamente imprevisível, variando de US$ 11 a US$ 14 por tonelada. Como parte de seu plano, o Estado decidiu permitir projetos de redução de emissões em setores não cobertos pelo sistema de negociação, como reflorestamento e agricultura.

Alguns grupos ambientalistas e acadêmicos nunca se conformaram com a ideia de um mercado que regula o direito de poluir.

"Eu recomeçaria com algo diferente", disse Doreen Stabinsky, professora de políticas ambientais globais no Colégio do Atlântico, em Bar Harbor, no Estado do Maine. "Acho que não podemos nos distrair brincando com um mercado, pois esse objetivo é muito importante, premente e difícil."

Alguns especialistas acreditam que, a longo prazo, os mercados de carbono farão uma contribuição substancial somente se puderem ir além dos limites políticos. Isso permitiria aos poluidores buscar em todo o mundo as maneiras mais baratas de reduzir as emissões.

De uma forma limitada, esse trabalho em rede já começou. A Europa permitiu o fluxo de bilhões para países em desenvolvimento, subscrevendo projetos que ajudaram, por exemplo, famílias pobres a adotar fogões a carvão mais eficientes. A Califórnia e o Quebec, no Canadá, conectaram seus mercados. A negociação entre eles começou no início deste ano.

O maior emissor de carbono, a China, começou a experimentar os mercados em sete cidades e províncias, com a intenção de formar um mercado nacional de carbono nesta década. Tanto a Califórnia quanto a Europa estão negociando com os chineses sobre futuras ligações.

Especialistas que apoiam o "cap and trade" afirmam que um mecanismo de mercado pode atingir mais profundamente a economia do que qualquer outra abordagem, modificando o comportamento até de pessoas e empresas que poderiam não se importar com o aquecimento global.

Os granjeiros de Wisconsin talvez sirvam como exemplo disso.

Pagel disse não estar convencido de que as mudanças climáticas sejam consequência das emissões humanas. Mas, disse ele, "se alguém acredita nisso o suficiente para investir dinheiro, é só o que preciso saber".

Fonte: Folha

JUSTIN GILLIS
DO "NEW YORK TIMES"

24/06/2014 02h00

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