Cresce a produção de mogno africano em Minas Gerais

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Plantação de mogno africano em Minas Gerais: produção de móveis incentiva o avanço da produção da madeira

Há quase 40 anos, um funcionário do governo da Costa do Marfim visitou um instituto de pesquisa em Belém do Pará, que mais tarde se transformou na Embrapa Amazônia Oriental, interessado em técnicas de plantio implantadas no Brasil e em possíveis intercâmbios. No fim da visita, meteu a mão no bolso e entregou ao diretor do centro paraense um punhado de sementes de mogno africano. "Plante que isso será o ouro do futuro", relembra o pesquisador Ítalo Falesi.

A previsão está sendo posta à prova agora por empresários de Minas Gerais, onde o plantio da árvore se expandiu rapidamente e as florestas da espécie khaya ivorensis em formação já estão entre as maiores do país. Seu cultivo para corte é permitido por lei, ao contrário do mogno nativo, que sofreu com a exploração predatória anos atrás. Os números não são exatamente os do ouro, mas quase. Na Europa, o metro cúbico da madeira castanho avermelhada chega a € 850; no Brasil, um quilo de sementes varia de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil.

Um dos maiores produtores do país é Ricardo Tavares, empresário mineiro do segmento de café. Ele se prepara para completar, no fim do mês, o plantio de 500 hectares em uma propriedade no município de Pirapora, região central do Estado. Em outra fazenda da qual é sócio, nos municípios de Ponte Nova e Capelinha, mais 200 hectares já foram semeados. Até o fim do ano, o plantio se estenderá por outros 300 hectares em São Roque de Minas.

Em seu luxuoso escritório em Belo Horizonte, Tavares faz as contas: "Nossos planos são de produzir 322 metros cúbicos por hectare. Acreditamos que o preço mínimo do mogno será de R$ 2,3 mil o metro cúbico, o que renderá R$ 740,6 mil por hectare. Tirando o que estamos investindo, teremos R$ 706,6 por hectare ou R$ 353,3 milhões no total. Isso só nas plantações de Pirapora". Ele comenta que o maior plantio individual no país pertence ao médico e escritor Augusto Cury, com 500 hectares na região do Triângulo Mineiro.

O projeto do empresário foi pensado para um prazo de 17 anos, com investimentos de R$ 17 milhões. A ideia é fazer os primeiros cortes em 11 e 12 anos, e depois no 16º e 17º ano. As árvores já completaram quatro anos. Em março passado, Tavares, que preside a Associação Brasileira dos Produtores de Mogno Africano, reuniu em Pirapora vários produtores. E entre eles estava Ítalo Falesi, que há 36 anos recebeu as sementes do enviado da Costa do Marfim.

Aos 79 anos, Falesi continua envolvido em estudos, produção e divulgação do mogno no Norte do país. As sementes que o marfinense lhe deu se transformaram em árvores imensas – elas podem atingir 13 metros de altura e 130 centímetros de diâmetro -, as primeiras a produzir sementes no Brasil.

Segundo o pesquisador, o Pará tem em torno de 1 milhão de árvores de mogno africano. Pelos cálculos da associação brasileira, existem hoje cerca de 1 milhão de mudas plantadas pelo país, das quais 60% estão em Minas Gerais. "Há uma grande demanda por sementes e o Estado tem sido o maior comprador delas. Neste ano, os plantios mineiros vão superar os do Pará", prevê Falesi.

Para o professor do departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (MG), Antônio Lelis Pinheiro, Minas Gerais de fato já ocupa a liderança do cultivo extensivo de mogno africano. "Eu diria que 70% dos produtores mineiros de mogno têm a meta de atender o polo moveleiro do Estado. No Pará, o principal negócio continua sendo a venda de sementes", compara.

Os maiores países produtores do mundo são Gana, Costa do Marfim e outros países da África Ocidental, que exportam a maior parte da sua produção para a Europa, grande mercado consumidor dessa madeira nobre para fabricação de móveis. No entanto, o Brasil leva vantagem em relação aos líderes mundiais. As plantações não sofrem com a broca da ponteira, mariposa que ataca também o mogno nativo e por isso inviabiliza seu plantio comercial. Por enquanto, o produtor brasileiro precisa mesmo é tomar cuidado com formigas e as abelhas arapuá, que atacam as árvores jovens.

O professor Antônio Lelis Pinheiro explica que o agricultor pode consorciar plantio de frutas e criação de gado enquanto a floresta de mogno está em formação. Ele tem notado que as árvores estão tomando espaço de cultivos tradicionais como banana e café, como aconteceu na fazenda de Ricardo Tavares.

No ano passado, sua empresa, a Atlântica Exportação e Importação, especializada em vendas internacionais de café, faturou R$ 420 milhões. Outras empresas e fazendas proporcionaram outros R$ 230 milhões. Mas o que entusiasma o empresário hoje em dia é o fôlego da demanda interna para a madeira proveniente do mogno africano. "O Brasil é o maior consumidor mundial de madeira tropical. Por isso, não me preocupo muito com o mercado externo".

Fonte: Valor | Por Marcos de Moura e Souza | De Belo Horizonte

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