Crédito para máquinas agrícolas na reta final

A escassez de crédito com juros subsidiados continua a preocupar as indústrias de máquinas agrícolas que atuam no país. Depois que um novo aumento (7%) das vendas em março ampliou a escalada iniciada no início do segundo semestre do ano passado e os recursos praticamente desapareceram, o temor é que a demanda aquecida perca o gás até o fim do atual Plano Safra, em 30 de junho. Para evitar a debandada de clientes até lá, as empresas pedem que o governo divulgue rapidamente as condições de financiamento que vão vigorar na próxima temporada, de modo que os produtores possam fechar suas encomendas agora para assinar os contratos de compra a partir de 1º de julho, já no âmbito do Plano Safra 2019/20.

Sem uma definição nesse sentido, esse "hiato" que cerca o Moderfrota, a principal linha de crédito para a compra de tratores e colheitadeiras do país – cujas taxas de juros variam de 7,5% a 9,5% ao ano -, além de outras linhas voltadas a pequenos produtores rurais, poderá prejudicar os negócios na Agrishow, a principal feira agropecuária do país – e, por isso, maior vitrine para a venda de maquinário – que acontecerá entre 29 de abril e 3 de maio em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Dos R$ 3 bilhões adicionais pedidos pelas indústrias ao Moderfrota- a linha teve R$ 8,9 bilhões no atual Plano Safra -, o governo liberou apenas R$ 475 milhões, redirecionados de outras linhas de crédito com demanda menor. Diante do apetite dos agricultores, não chegou a ser nem uma sobremesa, foi apenas um cafezinho. "É nossa principal preocupação. O dinheiro já esgotou. No BNDES tem muito pouco recurso para pequeno e médios produtores e o Pronaf [agricultura familiar] já está zerado", disse Alfredo Miguel Neto, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Ele informou que o Banco do Brasil deverá oferecer R$ 500 milhões para o financiamento de máquinas agrícolas nesse intervalo entre os planos. "Será como se fosse um espelho do Moderfrota, mas [o dinheiro] acabará em pouco tempo. Vamos chegar na Agrishow sem recursos", disse Miguel Neto. "Na próxima semana deve ocorrer uma reunião da ministra Tereza Cristina [Agricultura] com o Paulo Guedes [Economia] para tratar de uma liberação de recursos adicionais antes da nova safra", informou João Carlos Marchesan, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). De acordo com ele, o dinheiro que resta no Moderfrota deverá acabar até o dia 10.

Como a possibilidade de uma suplementação parece ser pequena, a melhor solução seria mesmo a antecipação da divulgação das condições de financiamento que vão vigorar no próximo ciclo. "Se tivermos as condições para o próximo Plano Safra, pelo menos poderemos receber pedidos para serem liberados a partir de julho", afirmou Paulo Schuch, superintendente comercial do AGCO Finance, banco de fábrica da multinacional americana AGCO.

Segundo ele, embora linhas com taxas livres tenham recursos, os juros futuros instáveis deixam os produtores receosos em assumir dívidas de longo prazo.

Para Miguel Neto, da Anfavea, é importante que o novo plano mantenha taxas de juros fixas, carência de 14 meses, e que esteja operacional já em 1º de julho. Marchezan, da Abimaq, diz que, se a demanda atual ficar muito reprimida, poderá haver no início do segundo semestre uma onda de pedidos que as fábricas terão dificuldade em atender.

Mas nem todo o segmento de máquinas agrícolas prevê o caos. De acordo com Claudio Bier, presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Simers) a escassez de crédito subsidiado não impediu negócios na Expodireto, feira realizada em Não-Me-Toque (RS) em março. "Não sei como estão os produtores de outros Estados, mas os gaúchos estão capitalizados e muitos optaram por usar recursos próprios para investir". A Expodireto movimentou R$ 2,4 bilhões, 9,6% mais que no ano passado. Segundo Bier, 98% desse valor foi obtido com a comercialização de máquinas agrícolas, e as vendas com recursos próprios aumentaram 38%, para R$ 235 mil.

Por Marcela Caetano | De São Paulo

Fonte : Valor

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