Cotonicultor importa máquina usada para a colheita

A expressiva ascensão do Brasil no comércio mundial de algodão nos últimos três anos pode custar bem mais caro do que os cotonicultores imaginavam. A multinacional americana John Deere, que produz a máquina colhedora mais moderna do mercado – o equipamento é feito nos EUA-, não está dando conta da demanda. Diante disso, os agricultores têm recorrido à importação de máquinas usadas, um nicho que começa a enfrentar escassez e preço mais alto.

Com o avanço da área de algodão no país – cerca de 1,6 milhão de hectares foi semeado na atual temporada, aumento de 40% ante a safra 2014/15 -, a demanda por máquinas cresceu e a John Deere, única fabricante que vende as colhedoras enfardadoras (que já fazem o rolo do algodão colhido), não teve condições de atender à demanda mesmo tendo dobrado a oferta em relação à safra passada (2017/18). A companhia importa as unidades dos EUA e não revela o valor pelo qual o produto é vendido no Brasil, mas produtores estimam que seja próximo de US$ 1 milhão.

Desde antes de começar o plantio da atual safra, em dezembro, a John Deere já não dispunha do produto disponível para a venda no Brasil. "O mercado está muito aquecido com a entrada de novos produtores na atividade e pela safra recorde", afirmou ao Valor o diretor de vendas da empresa no Brasil, Rodrigo Bonato. De acordo com o executivo, não há data certa para que a empresa volte a ofertar as colhedoras. "Mas já estamos recebendo encomendas para 2020", acrescentou.

Sem máquinas novas disponíveis, a saída tem sido importar colhedoras usadas. Essa alternativa já foi mais barata, mas com a demanda aquecida e o dólar valorizado, o custo ficou mais pesado. Cada colhedora importada, usada e em bom estado, custa em torno de US$ 650 mil (R$ 2,5 milhões) para o produtor, de acordo com o presidente da Prime Importação e Exportação, Alan Borges. Do valor total, cerca de 35% é destinado para os impostos, frete, licenciamento e outros gastos de importação.

O produtor rural Carlos Augustin, da Fazenda Sementes Petrovina, no município de Pedra Preta (MT), está finalizando a aquisição de uma colhedora usada dos Estados Unidos por R$ 2,2 milhões. Ele espera receber a máquina em julho e pretende alugar outra para dar conta da colheita da área de 7,5 mil hectares cultivada em 2018/19.

Nesta safra, Augustin ampliou a área plantada em 50% e teve dificuldade para encontrar máquinas para a colheita, que começa em junho. "Essas máquinas importadas são caras e não conseguimos financiamento. Trabalho com algodão há dez anos e é a primeira vez que isso acontece dessa forma", lamentou.

"Os produtores compravam das revendedoras da John Deere nos EUA, mas agora tem faltado até máquina usada para trazer", disse o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Milton Garbugio.

Os números da Prime, principal empresa de importação em Mato Grosso – o Estado lidera o aumento do plantio de algodão – confirmam que a demanda está aquecida. A empresa iniciou o ano com a perspectiva de importar 25 colhedoras da pluma na safra 2018/19. Na temporada anterior, quando o movimento de ampliação da área plantada já estava em curso, a demanda foi de 23 unidades. "Devemos manter as 25 unidades na safra que vem", disse o presidente da Prime.

De acordo com o importador, a demanda costumava se concentrar em Mato Grosso, mas, de alguns anos para cá, ganhou reforço de cotonicultores da Bahia e de Goiás.

Como pano de fundo para a ampliação da produção de algodão no país, está o crescimento da demanda da Ásia, e a dificuldade dos concorrentes do Brasil, sobretudo a Austrália – o país da Oceania sofre com problemas climáticos. Nos últimos três anos, as cotações do algodão na bolsa de Nova York subiram 30%, segundo cálculos do Valor Data com base nos contratos futuros de segunda posição de entrega. Nesse período, o Brasil assumiu a segunda posição entre os exportadores, ultrapassando Índia e Austrália e ficando só atrás dos EUA, de acordo com as estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Apesar do bom momento, os produtores de algodão do país se queixam da taxação à exportação de Mato Grosso. Segundo Borges, da Prime, a medida tomada recentemente pelo governo estadual já está levando os produtores a reconsiderar as importações de máquinas usadas.

Por Marcela Caetano e Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte : Valor

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