Coteminas faz parceria e cria empresa no setor agrícola

Fonte:  Valor Online | Fabiana Batista | De São Paulo

De olho na crescente demanda mundial por alimentos e na força do Brasil como produtor de grãos, a Companhia de Tecidos Norte de Minas (Coteminas), uma das maiores indústrias têxteis do país, decidiu entrar no ramo agrícola. A empresa anunciou ontem a criação da Cantagalo General Grains S.A., com foco na produção de grãos e algodão em larga escala, e da subsidiária de comercialização CGG Trading S.A., que será responsável pela comercialização desses produtos. Ambas já operam.

Apesar de ser a controladora, a Coteminas não está sozinha na empreitada. Sua participação no negócio é de 30%. A Encorpar, holding da família controladora da Coteminas, a Gomes da Silva, detém 20%, e os demais 50% estão divididos em cotas iguais entre dois sócios estratégicos. O aporte inicial no projeto não foi revelado, mas fontes do mercado informam que foi de cerca de R$ 500 milhões.

Um dos sócios estratégicos é a Agrícola Estreito, controlada pelo empresário Paulo Roberto Moreira Garcez, que tem longa experiência no setor. Há dez anos fundou a trading Multigrain, com foco em vendas de grãos, cereais e fibras, e sempre foi seu principal executivo. Ontem, Garcez informou que concluiu a venda, por US$ 49 milhões, dos 10% que ainda detinha da Multigrain para a japonesa Mitsui – que passou a controlar 98,1% da trading porque adquiriu uma fatia de 45% que estava nas mãos da americana CHS Inc., por US$ 225 milhões, em transação também anunciada ontem. Em 2009, a Multigrain faturou R$ 1,6 bilhão.

O outro sócio da Coteminas na aposta no campo é a GFN Agrícola e Participações S.A, que tem como principal acionista o produtor rural gaúcho Vilson Vian, há mais de duas décadas radicado em Mato Grosso. Vian também foi parceiro da trading argentina El Tejar em projetos agrícolas em Mato Grosso.

Conforme Ricardo dos Santos Júnior, conselheiro da Coteminas e agora também da Cantagalo, a nova empresa nasce com 151 mil hectares de terras próprias distribuídas nos Estados de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Piauí. A meta, diz, é quase dobrar a atual carteira de terras próprias por meio de aquisições. "Arrendar não está na nossa estratégia. Acreditamos no modelo baseado em áreas próprias", afirma o executivo. "O mercado está diante de um parecer da AGU [Advocacia Geral da União] que restringe compra de terras por estrangeiros. Nossa empresa é 100% de capital nacional".

Apesar de não se definir como uma empresa também do ramo imobiliário, a Cantagalo pode, se houver boas oportunidades financeiras, vender algumas terras, desde que outra com área equivalente seja adquirida em seguida, explica Santos Júnior. Da área inicial de 151 mil hectares, em torno de 50 mil já estão sendo preparados para o cultivo de grãos e algodão na safra 2011/12. No ciclo seguinte (2012/13), a área de plantio deverá evoluir para algo próximo a 110 mil hectares, de acordo com Alexandre Von Erlea, diretor comercial da CGG Trading.

O ambicioso projeto agrícola deverá, segundo as previsões da empresa, resultar em um faturamento de cerca de US$ 1,5 bilhão já em 2012. Será o primeiro ano completo de atuação da empresa e a expectativa é movimentar, no total, 2,5 milhões de toneladas de produtos agrícolas, diz Von Erlea. Em 2016/17, quando a Cantagalo prevê movimentar cerca de 7 milhões de toneladas de commodities agrícolas, a expectativa é que a receita anual alcance entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões, conforme Von Erlea.

Santos Júnior esclarece que parte dos volumes movimentados pela trading CGG virão da produção própria da Cantagalo, mas que a maior parte virá de terceiros. Segundo o executivo, a trading poderá ou não negociar a produção da Cantagalo. Tudo dependerá das vantagens que ambas terão com a transação.