Corporações fazem muito marketing ambiental, diz ativista

O ativista ambiental e escritor norte-americano Bill McKibben tenta convencer o mundo de que a mudança climática não é um problema do futuro: está acontecendo agora. Sua ONG 350.org chama a atenção para o perigo de concentrações de carbono na atmosfera de mais de 350 partes por milhão (ppm). Hoje, esse valor é de 400 ppm.

McKibben já foi preso quatro vezes em protestos, mais recentemente em uma manifestação contra um grande oleoduto nos EUA e Canadá.

Nesta semana, ele falou em Foz do Iguaçu a uma plateia de empresários e executivos brasileiros interessados no ambiente. Em entrevista à Folha, porém, ele diz que a maioria das grandes empresas não está agindo para evitar o aquecimento global, já que estão preocupadas só com o curtíssimo prazo.

Divulgação

O ativista ambiental e autor norte-americano Bill McKibben

O ativista ambiental e autor norte-americano Bill McKibben

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Folha – Temos visto mais jovens empreendedores que já criam seus negócios com modelos sustentáveis social e ambientalmente. O sr. acha que isso é algo que está crescendo no mundo?

Bill McKibben – Vemos em todo o mundo que os jovens são muito empreendedores e também que eles têm senso de comunidade muito forte. Acho que isso vem do fato de serem nativos digitais, esse senso de comunidade que vem de estar no Facebook, no Twitter. É diferente dos empreendedores com uma mentalidade muito mais individualista de gerações passadas.
É difícil que os jovens não tenham um senso de responsabilidade e não é coincidência que o ambiente esteja no topo da lista para muitos jovens. Eles é que terão que viver neste planeta por muito tempo, e o planeta estará todo ferrado.

Como o sr. vê o papel das grandes empresas no combate à mudança climática?
A maioria delas está no caminho. Há algumas agindo, mas são muito poucas. Muitas fazem um "greenwashing", fazem anúncios com fotos de pinguins e só. Ou fazem um pouquinho aqui e ali, dão algum dinheiro para um projeto.

Mas, em geral, as empresas não estão usando seu poder político para ajudar na mudança. Porque os executivos pensam no curtíssimo prazo. Pensar em daqui a cinco ou dez anos é um tempo impossivelmente longo para uma grande corporação.

Se houver alguma ação real contra a mudança climática, o sr. acha que virá das comunidades ou dos governos dos grandes países?

Infelizmente, a ação terá de vir em ambos os níveis simultaneamente. O melhor jeito seria vir das comunidades. Se a gente tivesse cem anos, seria melhor que fosse assim, todos faríamos mudanças lentas e graduais. Ficaríamos olhando as comunidades na vanguarda e as seguiríamos.

Mas infelizmente não temos esse tempo, então também precisamos de ação no nível de governo e no nível internacional, para forçar que o ritmo da mudança seja mais rápido. Isso é muito difícil, por isso nós fazemos esses movimentos.

Nossos movimentos se parecem com a internet, têm um componente local forte, mas se juntam de tempos em tempos para grandes ações globais. Mesmo as comunidades que estão na vanguarda em sustentabilidade não vão sobreviver às grandes secas, enchentes e outros eventos extremos que virão com a mudança climática, por isso precisamos de ação em nível mais alto.

O sr. acha que crises climáticas como a seca que estamos enfrentando em São Paulo ajudam a divulgar a causa da mudança climática?
Acho que sim, por isso é muito importante que os líderes aproveitem para dizer: vejam, é isso que acontece quando temos mudança climática. Por isso deveríamos estar preocupados com a mudança climática.

Muitas das suas ações tentam convencer as pessoas de que a mudança climática é algo que está acontecendo agora, e não um problema para o futuro.
Na verdade nem temos de convencer muito as pessoas, pois a natureza é uma ótima professora. Só temos de ficar lembrando as pessoas de que a ciência já nos alertou sobre o que vai acontecer. Nós confiamos na ciência em várias outras áreas da vida, andamos em carros desenhados por engenheiros, em aviões, usamos tecnologia. Este é um outro caso em que a ciência deixou claro o que está acontecendo.

Qual é o papel dos países em desenvolvimento?
Vocês não são tão responsáveis pelo aquecimento global, mas vocês têm de estar pensando em como enfrentá-lo, em como pular a etapa do desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis. Muitos países fizeram isso com a telefonia [pulando a etapa dos telefones e internet fixos diretamente para os celulares e smartphones].

O que os países em desenvolvimento deveriam estar fazendo é pressionar os países ricos por recursos para desenvolver essas soluções, especialmente na forma de tecnologia. Em um mundo racional os EUA estariam ajudando o Brasil a colocar painéis solares em toda casa e comunidade isolada, a colocar turbinas de energia eólica no mar.

A jornalista PAULA LEITE viajou a convite do Fórum Mundial de Meio Ambiente

Fonte: Folha

PAULA LEITE
ENVIADA A FOZ DO IGUAÇU

07/06/2014 02h00

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