Cooperação técnica e valor nutricional

Em meados dos 1950, visitou a Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul o agrônomo paulista José Gomes da Silva (1925-1996), pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas, que liderava uma campanha pela expansão da soja no estado de São Paulo. Ele queria incluir o RS no esquema triangular de cooperação técnica entre agricultores, pesquisadores e industriais – modelo visto por ele em Iowa, nos Estados Unidos, onde izera mestrado. Em Porto Alegre, conversou com o secretário da Agricultura, Maneco Vargas. Também formado em Piracicaba (SP), Vargas não lhe deu estribo: achava que os dois estados estavam separados por enorme distância, não apenas geográica, mas técnica. Melhor andarem cada um por si.

Em alguns aspectos, São Paulo já andava na frente. Caso da correção dos solos dos Cerrados com calcário. Desde 1951, um grupo de técnicos norte-americanos acampara no município de Matão, entre Piracicaba e Araraquara, para executar um projeto de pesquisa de calagem de lavouras de café, cana, cítricos, algodão e soja. Apoiada por cientistas de Campinas e Piracicaba, a empreitada era custeada pelos irmãos Rockefeller, donos da Standard Oil of California, a maior petroleira do mundo, representada no Brasil pela Esso.

No fomento ao plantio paulista, atuavam diversas indústrias lideradas pela Anderson Clayton, também dos Estados Unidos. Com uma defasagem de dois a três anos, o fomento da soja no Rio Grande do Sul era feito pelo Instisoja, liderado pela Samrig, que também atuava em São Paulo como o nome de Sanbra.

O tripé pregado por José Gomes funcionou espetacularmente, tanto que a soja se tornou o carro-chefe do agronegócio brasileiro, mas não alcançou senão parcialmente os resultados esperados por ele na nutrição dos pobres. Já nos anos 1980, o leite de soja era adicionado aos pacotes da merenda escolar, primeiro passo para sua adoção em cestas básicas do Tudo Pelo Social do governo de José Sarney (1985-1990).

Apenas no século XXI, no governo Lula (2003-2010), foi retomada a ideia de subsidiar a alimentação das camadas mais carentes da população. Na gestão do programa Fome Zero, oicialmente transformado no Bolsa-Família, sobressaiu o agrônomo José Graziano Gomes da Silva, ilho de José Gomes, o Zé Sojinha.

Depois do trabalho executado em Brasília, ele se mudou para Roma, onde cumpriu oito anos como diretor da FAO, o braço da Organização das Nações Unidas para a Agricultura, cujo foco é alimentar os pobres do mundo.

Fonte: Jornal do Comércio

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