Consumo global de suco de laranja reage

Silvia Costanti/Valor / Silvia Costanti/Valor
Marcos Fava Neves: crescimento modesto, mas importante, nos Estados Unidos

Impulsionado por países emergentes e por um surpreendente aumento observado nos Estados Unidos, o consumo global de suco de laranja voltou a crescer em 2013 depois de três anos de quedas, conforme estudo recém-concluído pelo Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing e Estratégia (Markestrat), com sede em Ribeirão Preto (SP). Em relação ao patamar de dez anos antes, porém, a retração supera 10%, o que mantém as indústrias exportadoras de suco brasileiro em alerta quanto ao futuro desse mercado.

Conforme adiantou o Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor, o levantamento mostra que o consumo nos 40 principais mercados da bebida, que respondem por praticamente 100% do volume total, somou 2,145 milhões de toneladas equivalentes ao produto concentrado e congelado (FCOJ) no ano passado, 1,1% a mais que em 2012. Houve avanços na América do Norte, na Ásia, na América Latina e na África, enquanto na Europa, na Oceania e no Oriente Médio a tendência de baixa prevaleceu.

Em tempos de menor oferta no Brasil, que domina mais de 80% das exportações mundiais da commodity, e na Flórida, que abriga o segundo maior parque exportador, a recuperação observada, ainda que modesta, poderá abrir espaço para novas altas das cotações no mercado internacional. Conforme cálculos do Valor Data com base nos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) negociados na bolsa de Nova York, os preços do FCOJ encerraram maio no mesmo "degrau" do mesmo mês do ano passado – o mais elevado desde março de 2012.

Em termos relativos, o maior incremento do consumo estimado pelo Markestrat em 2013 foi na África (19%), mas para um patamar ainda incipiente (38 mil toneladas). Na América Latina, o aumento foi de 5%, para 137 mil toneladas, enquanto na Ásia chegou a 5%, para 263 mil toneladas – 12,3% do volume total, nível considerado significativo. "Na China, houve um crescimento de quase 10% em um ano, ou 12 mil toneladas. Na década, a taxa acumulada foi de 171%", destacou Marcos Fava Neves, professor titular da FEA/USP de Ribeirão Preto e membro do conselho do Markestrat.

Nessas regiões do planeta, os avanços observados não surpreenderam. Berços de países emergentes importantes, tais fronteiras evitaram um tombo maior do consumo global desde o início da década passada, sobretudo por conta do crescimento da demanda néctares e outras bebidas com suco de laranja em suas composições, mais baratas que o suco integral. Este é consumido sobretudo em países desenvolvidos, onde já havia uma certa estagnação e a crise financeira global aprofundada em 2008 piorou a situação.

Surpreendente mesmo foi o incremento registrado nos Estados Unidos, determinante para o avanço observado na América do Norte. "Por representar quase 40% do consumo mundial, o mercado americano é o mais importante a ser analisado. Apesar de representarem uma retração de 34% em relação ao recorde de 1,111 milhão de toneladas estabelecido em 2000, as 729 mil de 2013 significaram um aumento de 25 mil toneladas em relação a 2012. É um crescimento bem modesto, determinado pela recuperação da economia e do consumo das famílias nos EUA, mas interrompeu a curva de queda", analisam Fava Neves e Vinicius Gustavo Trombin, sócio do Markestrat.

"O mercado americano vai continuar sendo muito importante nos próximos anos, e nele há uma mistura de risco e oportunidade. Se, por um lado, a redução da safra de laranja da Flórida pode motivar o aumento dos embarques de suco brasileiro inclusive aos Estados Unidos, por outro o aumento de custos decorrente do combate ao greening no Estado americano pode elevar o preço do mercado deles e atrapalhar o consumo", observa Ibiapaba Netto, diretor-executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), que representa as grandes empresas exportadoras de suco brasileiro (Cutrale, Citrosuco e Louis Dreyfus Commodities), cujas vendas no mercado global superam 1 milhão de toneladas por ano.

Também presente no cinturão citrícola paulista, onde as indústrias se abastecem de matéria-prima para a produção da bebida, o greening tem sido a principal causa para a redução da produção de laranja na Flórida. A doença está sendo melhor controlada no Brasil, mas seu potencial de proliferação ainda é grande, conforme reforçou na terça-feira o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), com sede em Araraquara, no interior de São Paulo, e mantido por empresas e produtores de laranja.

"O fato é que os produtores americanos estão muito empenhados em tentar resgatar a figura do suco de laranja como bebida nutritiva, o que é um bom sinal. E, do nosso lado, estamos costurando parcerias com clientes na Europa para uma campanha para aumento de consumo. Não temos valores fechados, mas as conversas já estão adiantadas", afirma Netto. O consumo no continente europeu, principal mercado para as exportações brasileiras, voltou a encolher em 2013 em relação ao ano anterior – 3%, para 778 mil toneladas. A região é a que mais preocupa os exportadores.

"França e Reino Unido registraram grandes quedas em 2013 [6% e 4%, respectivamente]. Na Alemanha, segundo mercado global mais importante para o produto, atrás apenas dos EUA, o consumo ficou estável em 2013, mas a queda na comparação com 2003 chega a 34%", realça Fava Neves. O estudo é baseado em dados da CitrusBR, da Euromonitor, da Nielsen, do USDA, da Tetrapak e da Planet Retail, entre outras fontes.

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Fonte: Valor | Por Fernando Lopes | De São Paulo

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