Construção sustentável e a Rio+20 (Artigo)

Duas décadas depois da Cúpula da Terra – que ficou para a história como Eco 92 -, os olhos de todo o mundo se voltam mais uma vez para o Rio de Janeiro.

Nos últimos 20 anos, a situação da vida no planeta agravou-se sensivelmente e as perspectivas para as próximas gerações, a partir da avaliação dos mais renomados cientistas do mundo, são cada vez mais dramáticas. O cenário futuro, caso não operemos mudanças urgentes, será de catástrofes climáticas, fome, migrações em massa.

É nesse contexto que cerca de 150 chefes de Estado e outras 50 mil pessoas – entre diplomatas, jornalistas, empresários, políticos e militantes ambientais – são esperados no Rio de Janeiro. As expectativas sobre o evento são proporcionais à dimensão dos problemas que a comunidade internacional precisa resolver.

Consciente desse quadro crítico, a indústria da construção vem buscando, ao longo das últimas décadas, adequar-se com celeridade aos novos paradigmas da economia verde. Entendemos que o setor, pela posição central que ocupa na economia, pode assumir uma posição de liderança nessa mudança que esperamos ver operada globalmente.

Questões fundamentais, que dizem respeito ao desenvolvimento sustentável, à melhoria das condições de vida da sociedade, à infraestrutura produtiva do país e à redução das desigualdades, passam – necessariamente – pela construção.

Esse segmento econômico, que representa, no Brasil, uma cadeia produtiva com 11 milhões de empregos gerados e que é responsável por 8,1% do PIB, pode ser o indutor da mudança entre o modelo tradicional de desenvolvimento para um novo paradigma de economia. O aumento da eficiência energética das edificações, o reuso da água, a redução no consumo de recursos naturais, a erradicação do deficit habitacional, a universalização da coleta e tratamento de esgotos, entre uma série de outras questões que afligem as cidades modernas, encontram na construção um caminho de superação.

Mas, para ocupar esse espaço, a indústria da construção no Brasil e nos países em desenvolvimento precisa se modernizar, investir em pesquisa e em novas tecnologias; sair do paradigma de um setor de baixa qualificação, intenso em consumo de materiais, para um novo patamar de industrialização, sustentabilidade ambiental, alta eficiência e produtividade.

É com o propósito de provocar uma reflexão sobre esse tema que a Câmara Brasileira da Indústria da Construção, juntamente com a Confederation of International Contractor"s Associations e a Federación Interamericana de la Industria de la Construcción, com apoio do Conselho Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), vão promover, dentro da Rio%2b20, um amplo debate, reunindo alguns dos mais importantes especialistas no mundo.

Acreditamos que as propostas de políticas públicas desenvolvidas no Brasil, no âmbito do Programa Construção Sustentável – resultado de mais de dois anos de trabalhos de especialistas e representantes da cadeia produtiva, da academia, de centrais sindicais e outras organizações da sociedade civil e do poder público -, podem contribuir como referência para a formulação de programas semelhantes em outros países em desenvolvimento.

Ainda há, no caso da realidade brasileira, longo caminho a ser percorrido antes que consigamos universalizar a prática da construção sustentável entre as empresas, os governos e os consumidores. Essa é uma realidade que está praticamente restrita ao universo das grandes construtoras. Para mudarmos esse patamar, será necessário atuar no fomento a políticas públicas e setoriais e no incremento a uma nova legislação que acolha e estimule a inovação. Mas os primeiros passos já foram dados.

A nossa perspectiva, ao realizar esse side event, é propiciar uma reflexão global sobre como reduzir as distâncias entre os países ricos e aqueles em desenvolvimento por meio da engenharia, da inovação tecnológica, da construção sustentável.

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE – DF | PAULO SAFADY SIMÃO, Presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção.