Consórcio milho-braquiária na prevenção de ervas daninhas

 

Especialista avalia desempenho do cultivo no controle de plantas invasoras da soja

Qual a melhor opção para a entressafra da cultura da soja? Considerando a germinação de plantas daninhas, algumas questões vêm à luz quando se fala, principalmente, de sucessão de cultivos. Gessi Ceccon, estudioso da área e pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, com sede em Dourados (MS), dá dicas de manejo relacionado ao tema e fala de trabalhos conduzidos na unidade da Embrapa.

Milho-braquiária – Reconhecido como uma importante alternativa no sentido de prevenir o problema, o consórcio milho-braquiária funciona no controle das plantas daninhas por um motivo básico: mantém a cobertura do solo. De acordo com Ceccon, quando nasce, a gramínea cria uma área de sombra que dificulta a passagem de luz e consequentemente o desenvolvimento das ervas daninhas. Passados 60 dias da semeadura do milho, a braquiária reina soberana nessa função. “Então, de fato, o consórcio é bastante eficiente, mas quem aprende, quem gosta do consórcio, acaba fazendo todos os anos, em toda a lavoura”, diz.

Apesar de não ser errado, o manejo pode ser mais estratégico. De acordo com o pesquisador, uma dica é dividir a propriedade em duas grandes áreas. “Em uma delas o produtor planta o consórcio e na outra, milho solteiro”, orienta. A prática traz reflexos tanto para a redução da quantidade de ervas daninhas na soja, como para o controle de pragas e doenças. Além de melhorar as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo.

“Aproveitando a janela de plantio, o produtor pode, inclusive, optar por um híbrido de milho mais produtivo e exigente, sem descuidar da aplicação de herbicidas para plantas de difícil controle,infestadas com capim milhã, capim carrapicho e amargoso”, afirma. Sem a braquiária, o milho ainda fica livre de qualquer competição entre culturas. Seguindo a ideia da rotação, outra alternativa é entrar com a integração lavoura-pecuária – estabelecendo com a braquiária uma opção para alimentar os bovinos na seca. Ou ainda recorrer a espécies de inverno que, dependendo da região, podem ser o trigo, a aveia ou o nabo forrageiro.

“Já na área em que foi feito o consórcio, a dica é semear a soja tardiamente. Isso significa esperar as primeiras chuvas, para dar tempo da braquiária rebrotar e, perdendo força, ser facilmente dessecada na hora da semeadura”, diz Ceccon.

Rotação de culturas – Em experimentos feitos na Embrapa Agropecuária Oeste, tratamentos com o feijão caupi apresentaram maior quantidade de plantas daninhas no início do plantio da soja do que qualquer outro – de milho solteiro, braquiária solteira ou consórcio. De acordo com o pesquisador, isso acontece porque a leguminosa tem ciclo curto e a decomposição de sua palha é muito rápida, deixando o solo descoberto ou com pouquíssima cobertura. “Mas, embora não seja a opção mais eficiente do ponto de vista do controle das ervas daninhas, é importante no balanço de matéria orgânica no solo”, diz. “E não tem jeito, em nosso caso, não temos uma solução que elimine as plantas daninhas da lavoura. Seja por trânsito de pássaros depositando sementes pela lavoura, seja em função da colheita mecanizada ou do próprio banco de sementes no solo, elas sempre vão existir, então é melhor fazer a rotação de culturas”.

O importante é ter conhecimento das espécies mais atuantes em cada cultivo. “No caso da braquiária solteira, identificamos problemas com o caruru. No caso do milho solteiro, com o picão preto, a corda de viola. O prejuízo vai depender do nível de infestação e da dose de herbicida necessária para retirar as plantas daninhas da lavoura”.

Saiba mais – Abaixo, detalhes da pesquisa que avaliou a presença de ervas daninhas na soja após sucessão de cultivos por um e três anos:

No milho solteiro semeado a 90 cm entre linhas, a corda-de-viola foi a espécie com maior habilidade de crescimento e ocupação do espaço, representando 84% da massa seca total das plantas na área. Após três anos, no entanto, a espécie foi substituída por outras.

O milho solteiro a 45 cm entre linhas apresentou somente picão-preto no primeiro ano, já após três anos a corda-de-viola dominou 46% do espaço disponível.

O consórcio milho-braquiária apresentou somente duas espécies daninhas em ambas as áreas (um e três anos de cultivo), sendo que no primeiro ano o picão-preto representou 99% da dominância, enquanto após três anos dividiu quase equitativamente a área disponível com o cordão-de-frade.

No feijão-caupi, o caruru foi a espécie dominante em ambas as áreas (um e três anos de sucessão).

Marina Salles

Fonte: Portal DBO