Conselho indica Parente como CEO da BRF

Marcelo Chello/CJPress/Folhapress

Ex-presidente da Petrobras, Pedro Parente já preside o conselho de administração da BRF desde o dia 26 de abril

Quase duas semanas depois de renunciar à presidência da Petrobras, Pedro Parente deve ser indicado hoje para o cargo de CEO da BRF pelo conselho de administração da empresa, apurou o Valor. A nomeação efetiva pode levar mais alguns dias, visto que o executivo precisa do aval da Comissão de Ética da Presidência da República. Como BRF e Petrobras não concorrem, acredita-se que o aval será só um protocolo.

A notícia, antecipada ontem pelo Valor PRO – serviço de informações em tempo real do Valor -, aliviou a pressão sobre as ações. Os investidores estão receosos com o futuro da companhia. O sentimento ficou ainda mais agudo depois das declarações catastróficas dadas terça-feira pelo vice-presidente de eficiência corporativa da BRF, Jorge Luiz de Lima, em audiência no Senado. Na ocasião, Lima disse que os constantes ataques internacionais sofridos pela BRF impedem a "estabilização emocional" necessária para a empresa fazer os estudos de revisão do parque fabril.

Analistas de grandes bancos também estão revendo as projeções sobre a BRF para refletir as dificuldades enfrentadas com os embargos internacionais e os preços dos grãos. Na segunda-feira, o Credit Suisse cortou o preço-alvo para os papéis da companhia de R$ 28,00 para R$ 18,00.

Durante quase todo o pregão de ontem, a ação da BRF liderou as perdas do Ibovespa e chegou a recuar 7,08%, a R$ 19,41. No fechamento, porém, a ação amenizou o queda, após o Valor PRO informar que Parente será nomeado. No ajuste final, as ações da empresa caíram 3,3%, a R$ 20,20.

A indicação de Parente, que desde 26 de abril também preside o conselho de administração da BRF, encerra um dos muitos focos de incerteza que rondam a companhia. Com um CEO efetivo, a BRF poderá iniciar o processo de recomposição do alto escalão, que tem muitas posições vagas ou ocupadas de forma interina.

Mas o anúncio está longe de sanar os problemas da empresa, que enfrenta em uma espiral negativa – o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda), pode superar 5 vezes, o maior entre os frigoríficos.

Apesar disso, fontes ligadas a acionistas da empresa insistem que a BRF pode lidar com pressão financeira sem fazer movimentos extraordinários – ao menos no curto prazo – como emissão de ações ou a venda de ativos operacionais. O mesmo vale para a eventual combinação da BRF com a Minerva Foods. Como qualquer movimento societário com a ação depreciada leva a uma forte diluição dos atuais sócios, há resistência para saídas desse tipo.

A direção do negócio, seja qual for, será estabelecida a partir do diagnóstico de Parente, disse uma fonte. Enquanto isso não ocorre, a BRF atua na venda de ativos não operacionais, como florestas e as ações que detém da Minerva. "É uma decisão da tesouraria e não relação com a urgência de caixa", disse uma fonte, tentando afastar especulações nesse sentido. Ontem, as ações da Minerva caíram 5,5%, o que já seria reflexo do movimento feito pela BRF, que tem 11,6% da companhia. A BRF não comentou.

No mercado, porém, a avaliação é que a situação da BRF forçará os acionistas a decisões de maior envergadura. Com a piora do cenário, cresce a aposta de que a solução passa por um novo sócio, seja majoritário ou minoritário, que poderia injetar recursos e mudar a percepção de risco sobre a BRF.

Antes de assumir efetivamente, Pedro Parente precisará do aval da Comissão de Ética da Presidência

Pelos cálculos de analistas, a BRF precisa gerar um Ebitda anual de R$ 3,5 bilhões apenas para lidar com os custos de suas dívidas e investimentos mínimos de manutenção da operação. Abaixo disso, a velocidade com que a companhia queima as suas reservas se acelera substancialmente.

O problema é que, para os analistas, esse montante não será obtido. Depois do turbilhão de notícias negativas sobre a BRF – a mais recente foi a tarifa antidumping da China contra o frango brasileiro – está se formando entre analistas do mercado um consenso de que o número para 2018 ficará substancialmente abaixo de R$ 3 bilhões. Alguns já estimam um Ebitda de R$ 2,5 bilhões.

A questão que preocupa investidores é que, com a fraca geração de caixa, a BRF terá dificuldade para romper a trajetória ascendente do endividamento. No primeiro trimestre, mesmo com R$ 215 milhões de fluxo de caixa operacional positivo, a empresa queimou R$ 238 milhões de seus fundos.

A BRF fechou março com uma dívida bruta de R$ 21,3 bilhões, para R$ 7,3 bilhões em caixa. Além dos compromissos serem elevados, há muitos vencimentos no curto prazo: R$ 6,8 bilhões até março de 2019.

Diante das perspectivas de Ebitda menor, o valor da empresa na bolsa não para de cair (ver acima). "A ação cai e não fica barata", simplificou um analista, ao explicar o efeito prático para o investidor da redução das perspectivas de resultado para o negócio. No momento, o valor de empresa (dívida líquida mais valor de mercado) da BRF equivale a mais de 10 vezes o Ebitda. Para os analistas do Credit Suisse, esse múltiplo ficará em 8,6 vezes em 2019, o que é mais condizente com empresas internacionais do mesmo setor, como a Tyson Foods. Se o Ebitda não se recuperar, o preço da ação da BRF terá de cair mais para atingir o múltiplo.

Por Luiz Henrique Mendes, Graziella Valenti e Juliana Machado | De São Paulo

Fonte : Valor