Confinamento de gado pode ganhar fôlego extra em Goiás

Guto Andrade/Divulgação / Guto Andrade/Divulgação
"Temos 8 mil bois preparados para entrar em confinamento. O impasse ainda é o preço", diz José da Silva, da Kiko´s Ranch

Os pecuaristas de Goiás estão em compasso de espera. Depois de reduzirem drasticamente a programação de animais confinados diante da queda dos preços do boi gordo em plena entressafra e da disparada dos grãos, os produtores do noroeste do Estado agora consideram acelerar os confinamentos em setembro.

Isso porque os preços do boi gordo, que haviam caído 6,7% até julho no mercado futuro da BM&FBovespa, começaram a se recuperar e já acumulam alta de 5,8% neste mês. Diante desse novo momento, os pecuaristas vislumbram a possibilidade de o boi gordo ultrapassar a barreira de R$ 105 por arroba, patamar que compensaria os custos com alimentação, que subiram 37% no período, segundo cálculos da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon).

Entre os dias 22 e 25 de agosto, o Valor acompanhou, a convite das consultorias Agroconsult e Bigma, a primeira etapa do "Rally da Pecuária", expedição que percorrerá 40 mil quilômetros do país para avaliar as condições de pastagens e da produção de gado. Num roteiro (ver mapa) em que percorreu os Estados de Goiás e Tocantins, a reportagem visitou sete fazendas, participou de trabalhos de campo e conversou com pecuaristas da região.

Em Mozarlândia, no noroeste de Goiás, a Fazenda Favorita mantém uma estrutura com capacidade para confinar cerca de 10 mil cabeças totalmente vazia. "Era para estar cheia, mas a situação fez com que a gente recuasse", conta José Cláudio da Silva, gerente do Kiko’s Ranch, grupo que comanda ao todo seis fazendas na região, distribuídas entre os municípios de Novo Mundo, Mozarlândia e Nova Crixás.

Silva explica que a seca nos Estados Unidos, que provocou uma forte alta nas cotações do milho, principal insumo para a ração de bovinos em confinamento, inviabilizou a criação dos animais nesse sistema de produção. "Além disso, o preço do boi não ajudou", disse.

Mas agora, com a recuperação dos preços do animal no mercado futuro, a Fazenda Favorita pode voltar a confinar ainda este ano. "Temos 8 mil bois preparados para entrar no confinamento. O impasse ainda é o preço", disse o Silva.

Na mesma situação, está a Fazenda Conforto, de Nova Crixás. Maior fornecedora da JBS e com capacidade estática de 35 mil animais no sistema intensivo, a propriedade pode ampliar em 5 mil o número de animais confinados, totalizando 65 mil cabeças terminadas no cocho neste ano – ainda abaixo dos 75 mil confinados no ano passado.

Para o agrônomo Maurício Nogueira, sócio-diretor da Bigma e um dos coordenadores do "Rally da Pecuária", a curva ascendente do boi gordo no mercado futuro deve estimular a entrada de novos animais no confinamento. "Até o meio de setembro, os pecuaristas ainda conseguem confinar", afirma. Os animais precisam estar prontos para o abate no fim da entressafra, em dezembro. "O boi já passou de R$ 101 [contrato para outubro]. Se atingir R$ 105, vamos confinar", concorda Silva, gerente da Fazenda Favorita.

Se o cenário se confirmar, será a segunda reversão nas estimativas de intenção de confinamento para este ano. Inicialmente, a Assocom previa um aumento de 13% dos animais terminados em cocho, para cerca de 3,9 milhões de cabeças. Agora, a entidade já projeta uma manutenção no número de animais confinados em 2011, de 3,4 milhões de cabeças.

A expectativa de retomada dos confinamentos não é, contudo, compartilhada por Bruno de Jesus Andrade, gerente-executivo da Assocon. "Pode até ser que alguns animais entrem agora, mas eles só vão morrer em novembro e no início de dezembro, o que pode não ser interessante", diz. Na sua avaliação, as chuvas do fim do ano podem ocorrer em maior intensidade por conta do El Niño, reduzindo a competitividade da terminação em cochos.

Segundo Andrade, nem todos os pecuaristas conseguirão fixar os preços na BMF&Bovespa para aproveitar o aumento do boi gordo. "Os pequenos e médios produtores não costumam fazer proteção de preço", diz ele. Juntos, eles representam pouco menos da metade do total de animais confinados. A Assocon estima que existam cerca de 900 confinamentos no país.

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Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De Itaberaí e Mozarlândia (GO)

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