“Como vai, em dez anos não existirá mais área rural em Porto Alegre”

Para o professor da UFRGS, Paulo Brack, este é o momento de retomar a mobilização em defesa das áreas preservadas do município, antes que os loteamentos autorizados ou não, substituam totalmente a vegetação nativa

EF/EcoAgência   

Mata preservada: envolvimento indígena

Por Eliege Fante – especial para a EcoAgência

O curso sobre a flora arbórea de Porto Alegre proporcionou o conhecimento sobre a sua conservação em determinados pontos do município. No terceiro e último dia do evento realizado pelo Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais, InGá, os participantes iniciaram a excursão na manhã de sábado (27) pelo Morro da Pedra Redonda. O Santuário de Nossa Senhora Mãe de Deus foi construído no topo do morro em 2000. Após a substituição da mata nativa pelo empreendimento, estão sendo plantadas espécies nativas até mesmo para sombrear o estacionamento nesse ponto turístico que tem uma vista panorâmica da cidade.

O solo raso possui afloramento rochoso e a vegetação é mais resistente à seca. Foram identificados determinados gêneros das árvores cocão, figueira e pitangueira. As duas primeiras árvores, mais crescidas, já oferecem alguma sombra e mostram características da escassez de água nas folhas pequenas e endurecidas. O professor da UFRGS, Paulo Brack, integrante do InGá, destacou que são tipos arbóreos que poderiam ser mais aproveitados nas propriedades rurais de modo a garantir a preservação das espécies nativas. Ele explicou que são árvores multifuncionais: apícolas, frutíferas, possui madeira boa para a feitura de cabos de ferramentas como o cocão. “Onde há quebra-vento ocorre o aumento da produção do cultivo que for. Nesses quebra-ventos podem se formar corredores de avifauna. Para fazer a sustentabilidade rural ambiental, econômica e social, basta ter vontade e combinar de fazer,” disse.

Resistência

Em volta da área terraplanada resistem caraguatás, vassourais, alecrins do campo, a graciosa lantana camará. O grupo avistou também a intensificação da pressão antrópica, dentre outras formas, pela crescente construção de moradias no bairro Glória e usos diversos do solo, como o pastoreio. Para o professor Brack, este é o momento de retomar a mobilização em defesa das áreas preservadas de Porto Alegre, antes que os loteamentos que avançam sobre os morros substituam totalmente a vegetação nativa.

O Morro da Polícia, também identificado como Morro da Glória ou Morro da Embratel, avistado do Santuário, sofre a descaracterização da paisagem. Um dos pontos mais belos da capital gaúcha tem sido deixado para trás pelas excursões devido a insegurança. A falta de políticas públicas foi apontada pelo professor como a principal causa. “Poderia ser feito um acordo com a comunidade de inclusão em um projeto de ecoturismo. Eles poderiam ser os guias, a vista de lá de cima é fantástica. Há uma necessidade urgente de diálogo com aquela comunidade,” disse Brack.

O caminho até o segundo ponto de identificação das plantas arbóreas nativas – a Estrada do Canta Galo – teve diversas paradas na Estrada do Rincão e na Avenida do Trabalhador. O grupo formado em sua maioria por biólogos avistou espécies nativas como aroeira brava, que provoca alergias, e ao seu lado, a árvore antídoto, a chá de bugre. E, no outro lado da estrada, os plantios de pinus – árvore exótica invasora – degradando a paisagem rural porto-alegrense. A substituição das plantas nativas deve-se, conforme o professor, ao desconhecimento dos usos e à falta de pesquisas sobre o potencial delas. O desprezo pelas flores nativas, como a petúnia e a begônia, sendo esta última alimentícia além de ornamental, também chamou a atenção do grupo devido a beleza reconhecida em outros países. Estima-se que menos de 5% das floriculturas do Estado incluam as flores nativas no catálogo.

“Como vai, em dez anos não existirá mais área rural em Porto Alegre.” É o alerta que o professor fez ao grupo a caminho do extremo sul do município. Desde 1999, a área rural passou a ser denominada pelo plano diretor como rururbana, permitindo a proliferação de núcleos habitacionais. Mateus da Silva, da organização do curso e integrante do InGá, ressaltou durante a passagem por uma ponte do Arroio do Salso a precária conservação desta que é a maior bacia hidrográfica da capital do Estado. Invasões, projetos habitacionais dos governos ou projetos de condomínios horizontais luxuosos descaracterizam a paisagem e representam risco à população, seja pelos efeitos da poluição gerada seja pelas possíveis inundações (LIMA, 2010).

Proteção indígena  

A identificação de mata alta evidenciou a chegada à estrada que margeia a Aldeia do Cantagalo, terra protegida guarani, no sudeste do município. A aldeia mais antiga de Porto Alegre garante a preservação das espécies nativas. Cangeranas, canela-ferrugem, tanheiro e inúmeras outras fizeram os apreciadores da botânica aprender seus usos e potencialidades. Em meio ao ronco dos bugios, o grupo fez o lanche. Após o breve intervalo, seguiu para o terceiro e último ponto de identificação de plantas arbóreas nativas do dia: prainha do Lami.

Areia grossa, praia de água doce, quente e rasa garantia a diversão das famílias. Para o grupo, o juncal levava ao sarandizal, ao maricazal e ao banhado com a figueira-purgante, a corticeira-do-banhado, a tarumã, a embaúba, a jerivá.

Mais adentro da mata, a restinga com cactáceas ornamentais cujos frutos e folhas são comestíveis, além das árvores branquilho, aguaí-mirim, ipê-amarelo. As áreas pelas quais o grupo pôde pisar foi antes pisoteada pelo gado. Ainda encontram-se áreas de mata fechada, cujo acesso é difícil. Chamou a atenção que, mesmo nessas áreas mais preservadas, o lixo urbano esteve presente: pés avulsos de calçados, restos de roupas, partes de computadores e de veículos, vidros, acessórios em couro, adesivos de propaganda política, dentre muitos outros objetos. É o desenvolvimento do humano urbano se impondo nas áreas preservadas graças ao envolvimento do humano indígena com a natureza. 

Ler também:

Mapeamento da suscetibilidade à inundação na bacia hidrográfica do Arroio do Salso, Porto Alegre, RS, de Luís Marcelo Martins de Lima.

Fonte: EcoAgência Solidária de Notícias Ambientais

http://www.ecoagencia.com.br/index.php?open=noticias&id=VZlSXRlVONlYHZETX1GdXJFbKVVVB1TP

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