Commodities têm projeção de queda

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Ana Laura Menegatti, da MBAgro: acordo EUA-China faria preços reagirem

O cenário para os preços dos grãos neste ano demonstra certo "recrudescimento para o produtor brasileiro", na avaliação do analista Felipe Novaes, da Tendências Consultoria Integrada. A expectativa é de retração de 4,8% e em torno de 3,0% para os preços domésticos da soja e do milho, pela ordem, em comparação a 2018, refletindo um ano de safras ainda cheias e a tendência de baixa observada no mercado internacional.

Sob impacto da guerra comercial entre Estados Unidos e China e de estoques de passagem elevados, especialmente no caso da soja, as cotações da oleaginosa e do milho em Chicago, na média de abril, sofreram perdas de 9,15% e 6,8% se comparadas a abril do ano passado. Segundo Ana Laura Angeli Menegatti, analista da MBAgro, o ano agrícola americano tende a se encerrar com estoques acima da média histórica e duas vezes maiores do que no ciclo 2017/18, superando 24,0 milhões de toneladas em 2018/19.

Se as duas superpotências conseguirem acertar os detalhes finais de um novo acordo comercial, ainda em negociação, observam Ana Laura e Novaes, espera-se alguma retomada das compras da soja americana pelos chineses, o que faria os preços reagirem positivamente, com reflexos sobre o mercado do milho. Internamente, o câmbio tem favorecido a formação dos preços dos principais grãos, com alta média de quase 14% entre abril de 2018 e o mesmo mês deste ano, como avalia a consultora da MBAgro.

As cotações do milho têm demonstrado certa resiliência e não caíram tanto quanto se esperava diante da maior oferta interna do grão. Considerando os contratos negociados na BM&F, Ana Laura projeta preços ao redor de R$ 32 a R$ 33 a saca para o segundo semestre, valores entre 11% e 13% abaixo da média da primeira metade do ano. Mas esses níveis somente tenderão a ser confirmar se o país conseguir exportar algo entre 31,0 milhões a 32,0 milhões de toneladas de milho neste ano e caso o câmbio mantenha-se favorável aos produtores.

Na média deste ano, conforme a analista Yasmin Riveli, da Tendências Consultoria, os preços das carnes tendem a subir, com altas de 4,7% para a arroba do boi gordo, de 3,0% para o quilo do frango vivo e de 2,5% para a arroba dos suínos. Neste caso, acrescenta ela, "com viés de alta", como reflexo das dificuldades observadas na China com o avanço dos casos de peste suína africana no país.

O descarte de porcos para conter a evolução do surto, de acordo com essa análise, deverá reduzir a produção de carne suína em 10,3% neste ano, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), representando um corte de 5,5 milhões de toneladas (ou 6,3 milhões de toneladas a menos do que a produção inicialmente esperada).

Além de favorecer os embarques da proteína pelo Brasil, afirma Ana Laura, o aumento nos preços da carne suína na China tende a se transferir para outros mercados de proteína animal ao redor do mundo. "O que ocorre na China não tem precedentes e ainda não se pode ter uma visão precisa dos efeitos sobre os mercados chinês e mundial", diz.

O volume recorde no processamento de café em 2018, quando o país produziu em torno de 59,9 milhões de sacas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda tem pressionado os preços neste ano, pondera Novaes. A despeito da bienalidade da cultura, expressa principalmente na variedade arábica, que concentra mais de 70% da produção brasileira, os preços médios tendem a apresentar baixa de 11% neste ano em relação a 2018, passando a rondar a casa de R$ 388 por saca de 60 quilos, frente a R$ 435 no ano passado, segundo o analista.

No mercado externo, as cotações atingiram em abril o nível mais baixo desde 2004, alcançando US$ 121 por saca, aponta Novaes. "Os preços internacionais vêm em processo de queda contínua desde 2016, acumulando baixa de 39% desde outubro daquele ano até março passado, já que o mercado continua bem abastecido, o que poderá desestimular a produção e gerar um ajuste gradual do mercado, numa tendência que deverá ser mais visível em 2020", projeta.

No caso do mercado internacional de açúcar, a tendência é de que continue sob pressão, de acordo com Plínio Nastari, da Datagro. Isso, apesar de um déficit entre oferta e demanda estimado em 3,44 milhões de toneladas para o período entre outubro deste ano e setembro de 2020 – um número "modesto frente a estoques ainda muito elevados, especialmente na Índia e Tailândia". Conforme Nastari, a expectativa é de que relação entre estoques e consumo, atualmente na faixa de 48,7%, recue para 44,7% no ano comercial 2019/20, permitindo melhora pouca expressiva nos preços.

Por Lauro Veiga Filho | Para o Valor, de Goiânia

Fonte : Valor

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