Com oferta menor, moinhos terão de importar mais trigo

A sequência de intempéries neste ano prejudicou a já diminuta safra de trigo do país e deve levar os moinhos brasileiros a se voltarem ainda mais para a oferta externa para atender a demanda doméstica. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), a importação do cereal de setembro a agosto de 2018 (período equivalente à safra 2017/18 na contabilização da Companhia Nacional de Abastecimento) deverá se aproximar das 7,5 milhões de toneladas, enquanto a média histórica é de 5,5 milhões de toneladas.

Algumas estimativas privadas, como a da consultoria INTL FCStone, também preveem aumento das importações, embora num montante um pouco mais modesto, para 7,2 milhões de toneladas.

A preocupação dos moinhos neste momento é quanto à qualidade do trigo nacional. Conforme os produtores do Paraná e do Rio Grande do Sul, os dois principais Estados produtores do cereal, avançam na colheita, piores têm sido os resultados.

Ainda não há avaliações precisas, mas já se percebe nas lavouras uma redução do pH do cereal (aumento de acidez), além do maior "índice de queda", associado à germinação, segundo os moinhos.

No Paraná, a qualidade começou a se deteriorar nas últimas três semanas com as chuvas, afetando o último terço da produção que está sendo colhida, conforme Carlos Hugo Godinho, coordenador de estatística do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Agricultura do Paraná.

No Rio Grande do Sul, onde a colheita alcançou um quarto da área, as lavouras têm apresentado manchas foliares, algumas registram doenças e a qualidade do cereal retirado do campo até agora é de "regular a ruim", conforme o último boletim da Emater gaúcha.

A piora da qualidade do trigo nacional deve diminuir ainda mais a oferta de cereal apropriado para a indústria de pão, que exige uma matéria-prima de melhor qualidade, afirma Marcelo Vosnika, presidente do conselho da Abitrigo.

A redução da disponibilidade de trigo de qualidade soma-se à quebra da safra nos dois Estados em decorrência de um longo período de seca durante o desenvolvimento das lavouras e de geadas em algumas áreas. Em sua última estimativa, a Conab previu que a safra brasileira neste ano será de 4,881 milhões de toneladas, redução de 27% ante a anterior.

Nesse cenário, a dependência do trigo da Argentina, geralmente de melhor qualidade, deve aumentar. Segundo Vosnika, o país vizinho – onde a colheita de estimados 18 milhões de toneladas está se iniciando – deverá exportar entre 6 milhões e 7 milhões de toneladas de trigo ao Brasil. O cereal argentino deve substituir inclusive a oferta do Paraguai, que vinha exportando em torno de 500 mil toneladas. Mas o país teve problemas climáticos semelhantes aos que ocorreram no Sul do Brasil e deve reduzir as exportações nesta safra.

O aumento das importações pelo Brasil só não será maior porque o consumo deve permanecer estável neste ano, em torno de 11 milhões de toneladas de trigo. A indústria já chegou a processar mais de 12 milhões de toneladas do cereal em um ano, mas a retração da demanda vista em 2015, decorrente da crise, ainda não foi revertida.

Apesar da quebra de safra no Brasil e da maior necessidade de importação, o preço tende a se manter sob controle, avalia Vosnika. Os produtores da Argentina estão sendo forçados a baixar o preço para competir com o trigo russo em regiões para os quais tradicionalmente exporta, como o norte da África e o Oriente Médio.

Por enquanto, o trigo argentino está chegando aos portos brasileiros a R$ 700 a tonelada, mas esse valor deve baixar conforme a colheita avançar. No Paraná, a tonelada de trigo foi negociada na última sexta-feira por R$ 628,53, segundo o Cepea.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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