COLABORADOR | Reminiscências | Carlos Nascimento

Assim como os povos, os países e as cidades, os prédios também têm história. Já houve quem dissesse que a história é escrita pela arquitetura e, certamente trata-se de assertiva correta. Na década de 1920, havia em Porto Alegre um cassino e bordel de alto luxo que era frequentado pelos cidadãos mais importantes da cidade. Situava-se na rua Andrade Neves e era ponto de reunião de políticos, empresários e de quem tivesse cacife para nele adentrar. A direção da casa, com o poderio econômico adquirido, resolveu abrir uma filial em plena Rua da Praia, junto às finas lojas e confeitarias frequentadas pelas mais distintas senhoras e senhoritas da sociedade gaúcha. Para isso, construíram um prédio luxuosíssimo, de seis andares, com vitrais coloridos, escadarias suntuosas, colunas enormes e salões atapetados. Na parte dos fundos havia aposentos aos quais a planta previa acessos discretos e, em alguns casos, secretos. A obra foi planejada pelo arquiteto Adolph Stern, professor da Escola de Engenharia. O fato chocou sobremaneira a tradicional família porto-alegrense pela forma ostensiva como seria exibido na rua mais importante da cidade o descalabro que representava uma casa daquela natureza. A reação foi enorme e os proprietários sucumbiram à grita moralista. Desistiram da intenção de abrir a filial do Clube dos Caçadores e repassaram o imóvel à Companhia de Força e Luz, que instalou seus escritórios no local, dando destinação bem menos suspeita a alguns aposentos.

A readequação arquitetônica estabeleceu uma grande vitrine na fachada, onde se viam maravilhas tecnológicas para o lar, como refrigeradores, ferros de passar roupa, rádios, aspiradores de pó e ventiladores, todos importados e alimentados por energia elétrica. Transformar uma libertina casa noturna em um monumento à eletricidade combinava perfeitamente com o espírito de modernização que se apossava de nosso Rio Grande.

Passaram-se várias décadas desde então, e o prédio sofreu outra metamorfose, transformando-se em monumento à cultura. Hoje, Centro Cultural Erico Verissimo, homenageia o escritor basilar de nossa literatura. Quão linda e justa é a história do prédio da Força e Luz da Rua da Praia! Tomamos conhecimento de detalhes desta ocorrência lendo o magnífico livro ‘Getúlio’, de autoria do jornalista e escritor Lira Neto.

presidente do IBPS

Fonte: Correio do Povo | COLABORADOR | Reminiscências | Carlos Nascimento

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