Câmbio e preços em queda reanimam demanda

A queda nos preços internacionais dos fertilizantes – reflexo da oferta abundante e da demanda fraca -, a recente reação do real ante o dólar e os preços dos grãos ainda em alta no mercado doméstico criaram o cenário ideal para a antecipação das compras de adubos pelos produtores do Brasil.

Para analistas, o momento é favorável à antecipação, uma vez que o insumo ajudará a manter – e, em alguns casos, a reduzir – os custos de produção na safra 2016/17, que superaram máximas históricas no ciclo passado, inflados pelo dólar.

Rafael Ribeiro, analista da Scot Consultoria, avalia que, de maio em diante, o cenário deve ser de retomada da demanda por adubos, com a proximidade da safra de grãos, cujo plantio começa em setembro. "Por isso muitos produtores já devem ir antecipando as compras". Do trio básico da adubação, a queda foi mais expressiva entre nitrogenados e potássicos, mas também os fosfatados cederam.

A SLC Agrícola, uma das principais produtoras de grãos e fibras do país, se apressou e já adquiriu em torno de 90% dos adubos necessários à próxima safra. Há um ano, havia comprado 50%. A expectativa de Aurélio Pavinato, CEO da SLC, é que os preços dos fertilizantes se mantenham em patamares mais baixos. "Ao longo do ano, pode haver repiques de preços no mercado interno, mas a avaliação é de que existe uma oferta elevada no mercado internacional, e o consumo está com limitações", diz.

Conforme o Rabobank, levando-se em conta os preços dos fertilizantes nos portos brasileiros, as cotações em dólar no início de 2016 chegam a ser até cerca de 25% inferiores às do mesmo período do ano passado. Mas a reação do real frente à moeda americana deixou as cotações do insumo ainda mais atrativas aos agricultores brasileiros.

Nas contas da Scot, em real, os potássicos registram queda média de 2,6% no acumulado do primeiro trimestre de 2016, os nitrogenados, 1,9%, e os fosfatados, 0,9%. "Os recuos não foram maiores porque o dólar ainda está elevado, e havia estoques adquiridos mais caros no ano passado", afirma Ribeiro.

Para o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), o menor peso dos adubos pode reduzir os custos de produção da soja no Estado na próxima safra 2016/17. Em relatório do fim de março, o Imea estimou uma despesa de R$ 3.289 por hectare com a oleaginosa transgênica, baixa de 1,9% ante 2015/16, que foi um recorde. Essa redução virá, em grande medida, pela queda de 11% prevista para os gastos com fertilizantes, que representam mais de 20% dos custos da soja.

Nesse contexto, produtores com fluxo de caixa mais confortável estão em vantagem para aproveitar essa janela de oportunidade para a compra de adubos, porque o crédito para custeio voltará a ficar robusto apenas em meados do ano, com o lançamento do novo Plano Safra.

A abundante oferta mundial tem empurrado para baixo os preços globais dos adubos desde 2011. "Entre os nitrogenados, houve grande elevação da produção no norte da África, nos EUA e na Índia, mas também entre os potássicos houve uma expansão importante", explica Fábio Rezende, analista da FCStone. A queda se acentuou desde o segundo semestre de 2015, sobretudo devido à menor demanda, diante dos baixos patamares de preços internacionais das commodities agrícolas.

O cloreto de potássio posto no porto de Paranaguá (PR) registra desvalorização de 30% ante um ano atrás, calcula Rezende. Em relação à ureia, a queda é de 29%, e do MAP, mais importante fosfato que o país adquire no exterior, de 26%.

Como o Brasil é muito dependente de importações, a disparada do dólar no ano passado levou os produtores brasileiros a cortarem o uso de fertilizantes. Assim, as entregas do produto ao consumidor final recuaram 6,2% em 2015, de acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Para este ano, uma recuperação é esperada.

No primeiro bimestre de 2016, as entregas de fertilizantes no país avançaram 10,8% em relação ao mesmo período do ano passado, para 4,25 milhões de toneladas. "O câmbio ainda deixa os preços das commodities mais favoráveis no Brasil, de modo que a relação de troca para o produtor também está muito positiva para adquirir fertilizantes", diz Rezende, da FCStone.

A GO Associados espera uma alta de 3% nas vendas de fertilizantes no país em 2016. Já o Rabobank prevê uma elevação de 1% a 4,3%. Mas o banco holandês pondera que fatores como a intensificação da demanda interna, a possibilidade de incremento dos custos portuários e o aumento dos fretes podem contribuir para sustentar os preços dos fertilizantes no mercado doméstico nos próximos meses.

Por Mariana Caetano | De São Paulo

Fonte : Valor

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