Clima e safra serão decisivos para IPCA menor

O clima neutro e a safra recorde esperados para 2017 devem levar os preços dos alimentos no domicílio a registrar a menor alta desde 2009, uma contribuição que pode ser decisiva para o cumprimento da meta de inflação no ano. Com a dinâmica positiva mostrada por esse grupo nos últimos meses, um número cada vez maior de analistas passou a projetar que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) irá encerrar 2017 abaixo de 4,5%, a meta de inflação perseguida pelo Banco Central.

Nas contas da 4E Consultoria, o IPCA acumulado em 12 meses pode ficar levemente abaixo de 5% já em março, depois de encerrar 2016 em 6,29%. Cerca de dois terços dessa desaceleração, segundo o economista Thiago Curado, podem ser explicados pelo comportamento dos preços dos alimentos "no domicílio". No primeiro trimestre de 2016, esses itens tiveram alta de 5,88%, mais do que o avanço esperado para 2017 inteiro. Agora, com clima mais ameno, esse grupo deve variar apenas 0,98% no primeiro trimestre, calcula.

Nesse cenário, que ainda contempla atividade econômica muito fraca, é possível que o Banco Central acelere o passo do corte de juros no próximo encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), reduzindo a Selic em 1 ponto percentual na reunião de fevereiro, diz Curado. Ainda assim, afirma o economista, esse não seria o caminho mais prudente. "É um cenário que não dá para ser descartado, mas a inflação de alimentos, que costuma ser muito volátil, não deveria ser justificativa para acelerar o ciclo de corte de juros", comenta ele.

A inflação de alimentos está desacelerando rapidamente por uma conjunção de fatores positivos. O primeiro é a ausência de efeitos climáticos adversos no primeiro semestre deste ano, com um regime de temperatura "neutro" no oceano Pacífico, o que costuma ser a exceção, e não a regra, conforme estudo da LCA Consultores sobre o impacto de eventos climáticos na inflação brasileira. Segundo a consultoria, os efeitos inflacionários de fenômenos como o "El Niño" e o "La Niña" são expressivos. Da alta de quase 15% dos alimentos até junho do ano passado, por exemplo, cerca de dez pontos percentuais foram decorrentes do "El Niño" muito forte de 2015 para 2016.

Desde meados do ano passado, quando esse impacto começou a se dissipar, a alimentação no domicílio passou de uma alta acumulada em 12 meses de 16,79% em agosto para 9,36% em dezembro. Em janeiro, a inflação nesse grupo cedeu para 6,47% e a expectativa é que esse movimento persista ao longo de 2017.

Como resultado do clima mais neutro, as projeções para o setor agrícola neste ano estão bastante otimistas. Segundo relatório divulgado na semana passada pelo IBGE, a safra deve ser 20,3% maior em 2017, um aumento de 184 milhões de toneladas em relação ao ano anterior. Culturas importantes, como soja, milho e arroz, vão ter aumentos importantes de produção, assim como itens que aumentaram muito de preço no ano passado, caso do feijão.

Um terceiro elemento, diz Marcio Milan, economista da Tendências Consultoria, também contribui para o comportamento mais favorável dos alimentos: a taxa de câmbio tem se valorizado e evita pressões adicionais de produtos cujo valor é definido em dólares.

A Tendências deve revisar em breve o cenário para a inflação no ano e a projeção atual, de 4,8%, pode ceder lugar para um número abaixo da meta. A melhora do cenário, diz, tem um forte peso da alimentação, que pode subir algo como 3,5% ou 4% no ano, algo não visto desde 2009.

Segundo ele, porém, não é só esse grupo que está levando o IPCA a desacelerar. Os núcleos de inflação, que procuram suavizar o comportamento dos itens mais voláteis, também cederam e não mostram variação acima de 0,4% no mês desde agosto. Para ele, a alimentação é sempre um risco, mas com expectativas de inflação mais ancoradas, os impactos indiretos de um possível choque tendem a ser mais reduzidos.

"Não são apenas os alimentos que serão o fiel da balança para a inflação neste ano", concorda Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, para quem a recessão e a condução da política monetária pelo Banco Central também têm papel relevante para explicar a desaceleração de um grupo estruturalmente mais resistente, a inflação de serviços. "Os alimentos são uma ajuda importante no momento, mas têm volatilidade fora do controle do BC. Se ele conseguir seguir trazendo a inflação de serviços para baixo, será o maior ganho dessa nova gestão", diz.

Nos 12 meses encerrados em janeiro, esse conjunto de itens desacelerou para um aumento de 6,21%, ante 7,96% um ano antes.

Para Vale, que projeta alta de 4,3% do IPCA, faz sentido aproveitar o momento atual, em que a inflação pode ficar até abaixo do centro da meta e há ganho de credibilidade por parte da autoridade monetária, para discutir alvos menores para a inflação nos próximos anos. "Já estamos atrasados nessa discussão", diz.

Já outros analistas avaliam que talvez esse debate devesse ter espaço só daqui um ou dois anos. "O Banco Central recuperou credibilidade há pouco tempo e o que está gerando melhora da inflação é recessão muito profunda, não foi uma melhora da situação fiscal", diz Curado, para quem ainda não é possível avaliar se existem avanços reais do processo de formação de preços, ou se a inflação de serviços está cedendo por efeito exclusivo da recessão e do desemprego. "Seria muito diferente se esse processo estivesse ocorrendo em uma situação normal de crescimento", afirma ele.

Milan, da Tendências, também avalia que o ideal seria ter mais pelo menos um par de anos com inflação sob controle para iniciar o debate sobre revisão da meta.

  • Por Tainara Machado | De São Paulo
  • Fonte : Valor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *