Clima derruba oferta de cebola e tomate

A forte alta dos preços da cebola e do tomate em 2015, que fez dos dois produtos os maiores "vilões" da inflação entre os alimentos no ano que passou, não garante um estímulo à expansão desses cultivos na nova safra, segundo especialistas do setor. Em 2015, a produção das duas culturas recuou no país por causa das chuvas acima da média na região Sul, relacionadas ao fenômeno El Niño. E, neste ano, as preocupações com o clima voltam a tirar o sono dos produtores.

Em Santa Catarina, que responde por um terço da produção nacional de cebola, agricultores receberam em média R$ 1,20 pelo quilo do produto classe 3 desde o começo da colheita, em novembro, até o início de janeiro. Na última semana, o preço já chegou a R$ 2,00 o quilo, o que supera em 88% o preço médio de todo o ciclo passado, segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural do Estado (Epagri), ligada à secretaria estadual de agricultura.

A valorização é reflexo da menor produção no Estado em pelo menos dez anos. Como sempre há uma perda de um quinto do volume por causa do armazenamento, a oferta deve ficar em 280 mil toneladas, avalia Daniel Schmitt, agrônomo da Epagri. Essa deve ser a segunda quebra de safra seguida, com redução de 15%, puxada por perdas de produtividade.

O custo de produção, porém, também está em alta nesta safra e deve ficar em R$ 0,74 para cada quilo de cebola produzida, 23% a mais que no ciclo anterior, estima o agrônomo. Se forem descontados os bulbos perdidos por causa das chuvas, o custo das cebolas ofertadas salta para R$ 1,48 o quilo.

No Rio Grande do Sul e no Paraná, onde a colheita também terminou recentemente, a produção deve ficar em 100 mil toneladas em cada Estado, segundo Schmitt. Dessa forma, a produção total do Sul não passará das 480 mil toneladas, bem abaixo da média de 700 mil toneladas. "A diferença equivale a dois meses do consumo brasileiro", compara.

As adversidades em Santa Catarina favorecem agricultores de Goiás, que respondem por 8% da oferta nacional e devem aumentar a área plantada, diz Douglas Silveira, agrônomo da cooperativa Coopacer, associada ao Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort).

Essa expansão pode pressionar as cotações na região do Cerrado quando chegar a colheita. "O ano passado foi de excelentes preços, mas os produtores de Minas Gerais estão cautelosos com um aumento de área em Goiás", afirma Silveira. Os dois Estados produzem cebola na mesma época, com plantio em abril, mas os agricultores mineiros não pretendem ampliar a área semeada.

Na cultura de tomate, o excesso de chuvas em São Paulo e Minas Gerais, que respondem por 35% da oferta nacional, também afetou a produtividade, o que se reflete em preços elevados até este início de ano. Segundo Simone Mello, do departamento de produção vegetal da Esalq/USP, os agricultores do país estão recebendo R$ 50 por uma caixa de 25 quilos, o dobro do que receberam no início de 2015. Essa alta mais do que compensou a quebra de safra, estimada pela pesquisadora em 18%, para 3,5 milhões de toneladas.

A valorização do tomate no campo também foi muito maior que a alta do custo de produção, que subiu 7,6% no ano e ficou, em média, em R$ 18,86 a caixa do país.

No entanto, as perspectivas para o cultivo de tomate neste ano são até mais incertas que para a cebola. O centro de estudos sinalizou em relatório que a área cultivada com o fruto deve ficar inalterada ou cair em algumas regiões pontuais, já que muitos produtores estão cautelosos com o clima.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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