Chuvas tendem a afetar plantio de milho

Apesar de alguns sustos com o clima, o plantio da safra brasileira de verão de milho até agora evolui bem. Assim como os preços do cereal, que apenas em setembro subiram quase 20%, a reboque do câmbio e da demanda aquecida para exportação.

Nas principais regiões produtoras da região Sul, mais da metade da área prevista para esta primeira safra da temporada 2015/16 já foi semeada. Mas as atenções seguem voltadas aos mapas meteorológicos, que sinalizam grande volume de chuvas nas próximas semanas – o que poderá oferecer sustentação adicional às cotações, sobretudo diante da perspectiva de que a área que está sendo plantada agora será expressivamente menor que na safra de verão de 2014/15.

"Há muitas chuvas previstas para os próximos dez dias em todo o Rio Grande do Sul. Em alguns municípios, estão sendo esperados mais de 200 milímetros, que é muita coisa", afirma Gianfranco Bratta, engenheiro agrônomo da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-RS). O excesso de água no campo tende a interromper o plantio no Estado, onde cerca de 60% da área prevista já foi semeada, à frente dos pouco mais de 50% do mesmo período do ano passado. Na safra 2014/15, os gaúchos lideraram a produção de milho de verão no Brasil.

Levantamentos preliminares da Emater-RS indicam que geadas ocorridas em meados de setembro provocaram casos pontuais de perda total em lavouras já plantadas. Mas os plantios que escaparam do frio ou que sofreram poucos prejuízos têm apresentado bom crescimento, mesmo com as chuvas intensas que vieram depois – o que não deverá ser suficiente, contudo, para manter o Rio Grande do Sul em primeiro lugar nesta temporada de verão.

A consultoria FCStone estima que Minas Gerais retomará o trono perdido na última temporada, com uma produção de 5,54 milhões de toneladas, ou 20% dos 28,09 milhões previstos para o país na safra de verão. O maior volume do milho brasileiro continua a ser colhido na segunda safra, plantada no inverno e também chamada de "safrinha" – que, liderada por Mato Grosso, em 2015/16 deverá superar as 55 milhões de toneladas colhidas em 2014/15. Os mineiros iniciarão o plantio da primeira safra nas próximas semanas.

Já o Rio Grande do Sul deverá colher 4,83 milhões de toneladas, expressiva baixa de 22% na comparação com a safra anterior, prevê a FCStone. Esse passo atrás será decorrente da queda na área – em detrimento do plantio de soja – e da produtividade do Estado, de acordo com a consultoria.

Logo atrás, os produtores do Paraná deverão colher 4,13 milhões de toneladas de milho no verão, volume semelhante ao da safra passada (4,69 milhões), projeta a FCStone. Já foi plantada no Estado 63% da área prevista, mesmo patamar de um ano atrás, conforme o Departamento de Economia Rural (Deral), vinculado à Secretaria da Agricultura.

Uma sequência de chuvas atingiu o Paraná nos últimos dias, mas, por ora, não há relatos de prejuízos. "Ainda assim, a previsão é que outubro seja bastante chuvoso, em função dos efeitos do El Niño, o que pode interferir um pouco na finalização do plantio", disse Edmar Gervásio, analista do Deral.

O órgão calcula que os paranaenses semearão 444 mil hectares este ano, a menor área da história. Segundo Gervásio, de modo geral os agricultores que continuam a apostar no milho durante a safra de verão são altamente tecnificados e com produtividade elevada, a ponto de compensar a rentabilidade da soja.

A produção da primeira safra de milho é basicamente voltada à demanda doméstica, e uma parte importante é destinada às rações de aves e suínos. Mas, diante da firmeza das exportações e da expectativa de queda na área plantada, transitar para o ano que vem com estoques mais enxutos pode dar novo impulso aos preços.

A Safras & Mercado estima uma redução de quase 10% no plantio de "milho verão" no Centro-Sul do país em relação a 2014/15, para 4,1 milhão de hectares. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgará estimativas para 2015/16 na sexta-feira. No início de setembro, a Conab estimou que as exportações totalizariam 26,4 milhões de toneladas neste ano comercial. A Safras aposta mais alto: 29,3 milhões. Somente em setembro, o Brasil embarcou 3,45 milhões de toneladas, 29% acima do mesmo mês de 2014 – em grande medida em função da alta do dólar, que diminuiu a competitividade do milho americano.

À demanda aquecida, soma-se justamente o dólar forte ante o real, que ajudou a sustentar as cotações do milho no país nos últimos meses, apesar do recuo da commodity na bolsa de Chicago. O indicador Esalq/BM&FBovespa acumula alta de 15,51% desde o início de 2015 até ontem, quando ficou em R$ 33,21 por saca. Somente em setembro, a elevação foi de 19,64%. "Se o câmbio continuar instável e incontrolável, o mercado interno vai subir", diz Paulo Molinari, analista da Safras & Mercado.

Por Mariana Caetano | De São Paulo

Fonte : Valor

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