Chuvarada pode frustrar bom momento do trigo

Clima pegou de surpresa produtores que apostam no cultivo do cereal

As intensas precipitações registradas no Rio Grande do Sul desde última semana e que nesta quarta-feira voltaram a desalojar centenas de famílias, também ameaçam a atual safra de trigo, principal cultura de inverno do Estado. Até junho, com a semeadura do trigo avançando forte, o clima era apontado como um fator benéfico. Veio julho, dois ciclones e muita chuva, alterando significativamente o horizonte num ano em que a área plantada deverá crescer cerca de 23%.

Na Região das Missões, por exemplo, a ocorrência de cerca de 200 ml de chuva em cidades como Santa Rosa e Ijuí, em uma semana, pode implicar perdas futuras e custos maiores. Juntas, as duas cidades somam mais de 50% de toda a área destinado à triticultura gaúcha, ambas com mais de 200 mil hectares semeados, segundo dados da Emater divulgados recentemente.

O excesso de chuva implica em lixiviação e erosão do solo, o que leva a perda de nutrientes e dos insumos aplicados, diz Hamilton Jardim, representante da Farsul para a área do trigo. E com a previsão de mais chuva nos próximos dias, o que impede dar continuidade do plantio em cerca de 20% da área prevista, muitos agricultores precisarão avançar no zoneamento agrícola recomendado para a cultura, que termina na sexta-feira (10). Fora do zoneamento, o risco de perda é maior e já não há cobertura do seguro.

"Além das lavouras já implantadas sofrerem muito, aquelas a serem semeadas precisam de vários dias sem chuva para que possa ter andamento. Algo que vinha normal até a semana passada agora é preocupante. Ainda assim, o plantio vai seguir, já que o produtor adquiriu os insumos e agora precisa usá-lo", explica Jardim.

A chuvarada pegou de surpresa os produtores. Até junho as estimativas climatológicas previam tempo favorável ao trigo da semeadura à colheita, mas os últimos dias mostraram o contrário. Técnicos da Emater ainda são cautelosos quanto a projetar perdas, mas a produtividade menor é um ameaça real. A adubação que seria feita agora, especialmente com ureia, vai ter que esperar, assim como o controle de plantas daninhas e pragas, que fica mais difícil de monitorar com o solo encharcado.

"As lavouras em desenvolvimento vegetativo, em decorrência da umidade, têm mais risco de ocorrência de doenças. As condições não são boas porque dificultam a germinação e atrasam a implantação nesta final da semeadura", diz Ronaldo Carbonari, gerente de planejamento da Emater.

Com os trabalhos paralisados, a expectativa é que o tempo seco permita ao produtor retornar ao campo o mais breve possível, seja para avaliar os danos e reforçar a aplicação de insumos perdidas na enxurrada, seja para plantar o que ficou para trás nos últimos dias.

José Cláudio Reis, técnico da Emater em Giruá, é um pouco mais otimista. "Não é alarmante, neste momento. O processo erosivo é o maior dano, mas produtores que trabalharam melhor o solo, mantendo palhada da cultura anterior, tiveram menos prejuízo. E o trigo tem uma capacidade de recuperação muito boa nesta fase", pondera Reis.

Gilmar Vione, assistente técnico regional da Emater de Santa Rosa, também alerta para a perda de nutrientes devido à erosão ou lixiviação do solo, o que pode se refletir em desenvolvimento menor da planta e áreas amareladas na lavoura. Apesar do custo maior para reaplicação de insumos, a perda na produtividade ainda pode ser contida, mas é uma ameaça os lucros futuros. E ainda há projeções apontando para um julho mais chuvoso do que a média, antecipa Vione. Com alta nebulosidade ocorre redução na luminosidade, que é importante para o trigo.

Fonte: Jornal do Comércio

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