Chuva poderá retardar plantio de soja nos EUA

Daniel Acker/Bloomberg / Daniel Acker/Bloomberg
Depois das chuvas, produtores aceleraram plantio de milho nos últimos dias nos EUA; agora, as atenções estão na soja

O clima frio e úmido que atrasou o plantio de milho nesta safra 2013/14 nos Estados Unidos deve atrapalhar também a semeadura da soja, que começou neste mês e se estenderá até o fim de junho.

As chuvas serão constantes na Primavera do Hemisfério Norte, e se intensificarão em algumas regiões do chamado “cinturão agrícola” americano, levando a paralisações temporárias dos trabalhos. A próxima já tem data para ocorrer: hoje. Uma nova frente fria se aproxima da região, provocando chuvas até quarta-feira da semana que vem. Só depois disso o tempo deve voltar a abrir totalmente e permitir a entrada das máquinas no campo.

Segundo meteorologistas, a precipitação será mais intensa no Estado de Iowa, onde a expectativa é de chuvas de até 50 milímetros nos próximos quatro dias. “A média histórica naquela região para o mês de maio é de 95 milímetros de água. Chover 50 em quatro dias já é suficiente para encharcar o solo lá, que é bastante argiloso”, afirma Celso Oliveira, da Somar Meteorologia. “Isso não só atrapalha o fim da janela de quem está plantando milho, mas atrasa o início da soja”.

O atraso de quase 30 dias para o início do plantio, por sua vez, vai empurrar a fase mais crítica do desenvolvimento das plantas para o alto verão, tradicionalmente seco nos EUA. Em vez do florescimento e enchimento de grãos em junho (um mês mais “ameno”) e julho, será em julho e agosto, mais quentes.

É difícil prever o impacto disso sobre a produtividade das lavouras, já que o solo argiloso americano é capaz de reter mais água e compensar a secura do verão. Existem especulações sobre pequenas quebras locais de milho, mas o saldo final da safra tende a ser pouco afetado.

Ao contrário dos dois últimos anos, quando os EUA sofreram com a falta de chuvas – no ciclo 2012/13 o país registrou a pior seca em meio século -, a safra 2013/14 tem sido beneficiada por temperaturas amenas e mais água.

Assim, as estimativas sugerem que a produção americana de grãos não repetirá, nem de longe, as quebras recentes. Segundo as projeções mais recentes do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), a produção de milho aumentará de 274 milhões de toneladas, em 2011/12, para 359 milhões nesta safra, enquanto a de soja crescerá de 82 milhões para 92 milhões de toneladas.

“De modo geral, o cenário para esta safra é muito melhor que no ano passado. Mas nem por isso a situação imediata no campo não preocupa”, diz o meteorologista Marco Antonio dos Santos, também da Somar. “O que plantar lá, vai dar. A questão é se os produtores americanos vão conseguir chegar à área plantada de milho prevista devido a esses atrasos”.

Eduardo Rodriguez, corretor do Fintec Group, conta que há especulações sobre uma perda de 1 milhão a 2 milhões de acres (404,6 mil a 809,3 mil hectares) de área plantada com milho nos EUA por causa da semeadura tardia. “Por isso”, afirma ele, “há quem trabalhe com a ideia de que a produção poderá ser de 344 milhões de toneladas, não de 359 milhões”.

Mas não são só as chuvas que retardam o plantio de grãos. Outro fator importante nos EUA é a temperatura do solo, que após um inverno rigoroso e quatro frentes frias concentradas em abril, manteve-se mais baixa que de costume para esta época do ano. Idealmente, o plantio de grãos ocorre com o solo entre 20º C e 35º C. Entre 12º C e 20º C, as sementes demoram para sair da dormência, mas não morrem – em vez de germinar entre cinco e sete dias, levam o dobro do tempo.

“O frio foi determinante para o atraso do início desta safra nos EUA. A temperatura do solo só começou a ficar viável a partir do fim de abril. Agora, não é mais o fator determinante”, explica Santos.

A questão ainda em aberto, dizem analistas, é qual caminho o produtor escolherá nos próximos dias: apostar no restinho da janela de plantio milho, que termina neste mês, ou migrar para a soja, correndo o risco de ter o plantio também atrasado pelas chuvas.

“Mas os produtores americanos são muito tecnificados, então com qualquer janela de clima o avanço no plantio é significativo”, diz Stefan Tomkiw, vice-presidente da mesa de derivativos para América Latina do Jefferies Bache, em Nova York.

Ainda assim, na segunda-feira, dados divulgados pelo USDA reforçaram a tensão com o atraso da semeadura no país. Segundo o órgão, o plantio de milho chegou a 28% na semana até 12 de maio, bem abaixo dos 85% do mesmo período do ano passado e dos 65% da média dos últimos anos. A situação é pior nos Estados de Wisconsin, Iowa e Illinois, onde a semeadura do grão alcança 14%, 15% e 17%, respectivamente.

Na cultura de soja, a lentidão no plantio também é marcante, com apenas 6% já semeados, contra 43% do mesmo intervalo de 2012 e 24% da média dos últimos anos. A oleaginosa está mais atrasada em Wisconsin, Iowa, Missouri e Kansas, com só 1% das lavouras cultivadas.

“A preferência do produtor americano é sempre terminar o milho, carro-chefe do campo por lá. Ele primeiro tenta plantar todo o grão para depois ir para a soja. Por isso, o atraso do início do plantio da soja se deve mais em função do milho que de condições climáticas”, diz Santos.

Atrasado com a soja, o produtor terá de “espremer” o plantio entre os intervalos sem chuva durante maio e junho. Os mapas meteorológicos mostram que na próxima quinzena as máquinas terão de ser desligadas por pelo menos oito dias porque choverá pesado no cinturão. Na primeira quinzena de junho choverá acima da média e na segunda, menos. É olhar para o céu e correr.

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Fonte: Valor | Por Bettina Barros e Mariana Caetano | De São Paulo

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