China desmonta política de estocagem de milho

A partir da próxima safra, o atual sistema de armazenagem deverá ser substituído por subsídios aos agricultores em caso de queda dos preços no mercado
A China se comprometeu a aposentar sua dispendiosa política de armazenamento de milho, que abalou os mercados mundiais nos últimos anos e deixou o país com estoques suficientes para mais de um ano de consumo.

A política de comprar milho a preços mínimos determinados pelo governo até 50% superiores aos praticados no mercado acabou se tornando um custoso dilema para Pequim. As autoridades chinesas temiam que descarregar os estoques pudesse derrubar os preços e desencorajar os agricultores a plantar mais, ameaçando a segurança alimentar nacional.

Nesse contexto, a Administração Estatal de Grãos destacou, em comunicado divulgado ontem, que vai substituir o sistema de armazenagem por subsídios aos agricultores quando os preços caírem. A mudança entrará em vigor a partir da próxima safra, no outono chinês. O governo também vai encorajar as grandes estatais chinesas a comprar dos agricultores seguindo os preços de mercado.

"É apenas um passo inicial. É preciso fazer mais", disse Ma Wenfeng, da Beijing Orient Agriculture Consultancy, crítico da política de armazenagem. De acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), os estoques de milho na China no fim desta temporada 2015/16 deverão chegar a 113 milhões de toneladas, mais de metade dos estoques mundiais totais.

Uma política similar para lidar com o superávit dos estoques de algodão está em vigor há dois anos, mas não conseguiu reduzir significativamente as reservas chinesas, estimadas em 60% das mundiais. As reservas teimam em continuar altas em parte porque os preços definidos nos leilões estatais são altos demais. Assim, é difícil vender o algodão armazenado, em sua maior parte de qualidade inferior ao da colheita anterior.

"Os estoques de algodão estão altos porque eles não venderam as reservas e ainda estão comprando em grandes quantidades do Bingtuan", disse Ma, referindo-se ao nome como é conhecida a Xinjiang Production and Construction Corps, um grupo paramilitar de chineses Han assentados ao longo da fronteira com a Ásia Central.

A China informou que vai reduzir em setembro os preços do milho fixados pelo governo, mas para patamares ainda superiores aos das cotações internacionais. A diferença de preços fez com que as importações em 2015 alcançassem um volume recorde e encorajou o contrabando e outras irregularidades. As cotações do milho na cidade de Dalian para entrega em maio estão em 1,7 mil yuans por tonelada, o equivalente a US$ 6,61 por bushel. Na bolsa de Chicago, o lote do cereal para entrega também em maio é negociado a US$ 3,71 por bushel.

No período de 12 meses encerrado em março, as importações chinesas de milho somaram 5,5 milhões de toneladas, quase 70% mais que no ano-móvel anterior, de acordo com dados do USDA.

E restam muitas dúvidas sobre a nova política chinesa. O orçamento do Ministério das Finanças do país, divulgado neste mês, contrariou as expectativas e não incluiu provisões para subsídios aos agricultores. Além disso, especialistas acreditam que o governo terá de dar baixa contábil no valor da parte dos estoques que se deteriorou.

O fim da política de armazenagem não significa necessariamente que a China – ou o mundo – vão ser inundados por grãos de qualidade competitiva em relação aos produzidos em outros países. Uma investigação de uma rede de TV chinesa, intitulada "Ratos no Celeiro", revelou recentemente que os armazéns estatais no nordeste chinês, rico em alimentos, estavam comprando grãos velhos e inferiores, a preços com desconto.

Há relatos sugerindo que o mesmo também vale para os silos de trigo, algodão e arroz.

Na semana passada, o executivo-chefe da Louis Dreyfus Commodities, Gonzalo Ramírez Martiarena, disse que a China poderia levar 18 meses para esgotar seus estoques, presumindo que estejam em boas condições. "É muito difícil armazenar grãos por muitos anos", disse. "Mas, se eles estiverem fazendo a rotação apropriadamente, então talvez tenham estoques de boa qualidade". (Tradução de Sabino Ahumada)

Por Lucy Hornby | Financial Times

Fonte : Valor

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