China derruba commodities agrícolas

Consideradas mais resistentes às turbulências no mercado financeiro, as commodities agrícolas não ficaram imunes às incertezas no front macroeconômico em janeiro. O colapso das ações das empresas na China, o consequente temor com a demanda do país e a forte desvalorização do petróleo atingiram em conjunto as cotações das matérias-primas produzidas no campo.

Os produtos negociados na bolsa de Nova York, conhecidos como "soft" commodities, foram os que mais perderam valor neste mês, conforme levantamento do ValorData. O cacau liderou as perdas, com uma desvalorização de 11,8% no preço médio dos contratos de segunda posição de entrega.

O movimento reverte parte dos ganhos ao longo do ano passado, mas os analistas divergem quanto ao rumo dos preços este ano. Quem crê em uma recuperação justifica que os ventos Harmattan mais fortes neste ano afetaram a safra do oeste da África. Já os que preveem mais perdas avaliam que a demanda global foi afetada após anos de valorização do cacau.

O movimento dos fundos especulativos sugere, porém, que a tendência de novas perdas é menos provável. Entre os dias 5 e 19, os gestores de recursos reduziram suas apostas de queda dos preços (posição líquida vendida) em 46%, segundo relatório da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC).

Os contratos de segunda posição do suco de laranja também tiveram perda expressiva, com queda de 9,8% em janeiro. Colaborou para derrubar as cotações a manutenção da estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para a colheita da Flórida em 69 milhões de caixas, após meses cortando suas projeções.

Mais dependentes da demanda da China, as cotações do açúcar e do algodão perderam terreno de forma mais modesta, já que a oferta de ambos deve ser mais restrita nesta safra. Os papéis de segunda posição do açúcar na bolsa de Nova York caíram 3,58%, enquanto os do algodão recuaram 2,97%.

A desaceleração econômica na China, porém, não deve afetar as importações de açúcar do país, porque a produção local tem sido abalada por uma forte seca. Tanto que, em 2015, o país importou um volume recorde de açúcar, 4,8 milhões de toneladas.

No caso do algodão, já há uma forte retração das importações, mas provocada por uma mudança na política do governo chinês. Após passar anos acumulando estoques, Pequim decidiu priorizar a venda do algodão que está no país. Como resultado, as importações do produto caíram 40% em 2015, para 1,5 milhão de toneladas.

A queda das duas commodities, porém, é vista como uma tendência reversível. Na semana encerrada dia 19, os fundos aumentaram seu saldo líquido comprado (expectativa de alta) em 30% para o algodão e 20% para o açúcar.

O café, por sua vez, foi pressionado pelas turbulências do mercado externo e a alta do dólar em relação ao real, o que estimula as exportações brasileiras. O preço médio do arábica caiu 2,81% no mês.

Curiosamente, os grãos tiveram quedas bem mais modestas. Embora a China seja a maior importadora de soja do mundo, as incertezas com a produtividade no Brasil por causa de adversidades climáticas seguraram a queda das cotações. Os papéis de segunda posição recuaram em janeiro apenas 0,82% na bolsa de Chicago. Porém, os papéis acumulam em 12 meses uma retração de 13,2%, resultado de estoques recordes no mundo.

Já os contratos do milho caíram 2,1% no mês. Houve forte influência do tombo do petróleo, que aumenta a competitividade da gasolina e prejudica a de etanol, que nos Estados Unidos é produzido a partir do cereal. O preço médio do trigo, por sua vez, caiu 1,1%.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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