China busca diversificar fornecedores de soja

Evandro Menezes de Carvalho é dos maiores conhecedores de temas sino-brasileiros hoje no País, atuando como consultor do China Desk do Veirano Advogados, diretor da Rede Brasil-China de estudos e coordenador do núcleo de estudos Brasil-China da Escola de Direito da FGV/RJ. Para ele, dentro de uma visão de longo prazo, o gigante asiático deve seguir investindo no Brasil mesmo com todos os percalços causados recentemente por declarações de integrantes do governo federal, como o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o próprio ministro de Relações Exterior, Ernesto Araújo.

Carvalho pondera, no entanto, que houve retração e direcionamento de parte de recursos chineses para outras nações, como a Argentina, e que em itens como soja é grande o risco de o Brasil perder mercados por lá. A perspectiva positiva é o fim da polêmica em torno da participação da Huawei na disputa pela implantação da tecnologia 5G no Brasil.

Nesta sexta-feira (5), tem início a Assembleia Popular Nacional (ANP), o que também indica os rumos para o país nos próximos anos. O que é, ressalta Carvalho, fonte importantes de indicadores econômicos e de negócios para o comércio global. A seguir, os principais trechos da entrevista de Carvalho ao Jornal do Comércio.

Jornal do Comércio – Tivemos muitas tensões nos dois últimos anos no âmbito político com a China, nosso maior parceiro comercial, evolvendo declarações de diferentes integrantes do governo federal. Com o senhor avalia que está a situação, hoje?

Evandro Menezes de Carvalho – Do ponto de vista das relações comerciais ainda vão muito bem, tanto que o Brasil ainda manteve superávit na balança em 2020, de mais de US$ 30 bilhões, maior parte com a China. Porém, do ponto de vista dos investimentos chineses no Brasil, sim, há uma série de fatores que contribuíram para uma redução significativa. Não podemos deixar de citar a pandemia, que levou à readequação dos investimentos chineses no mundo, porque eles estão focando no mercado interno. E a China focar no mercado interno é fundamental para a recuperação da economia global. Mas também tem relação com estes problemas diplomáticos com o Brasil, um deles envolvendo a decisão do 5G, quando até recentemente não se tinha ideia se as operadoras poderiam comprar equipamentos da Huawei. Polêmica agora encerrada, não se sabe se por mais racionalidade do governo, pela pressão do agronegócio – a quem é importante manter boas relações com a China – e de empresários em geral, pelo interesse na compra de vacinas e insumos para fabricação pelo Butantan. Enfim, são vários fatores que levaram a isso. Até mesmo a relação brasileira com o governo Biden, que defende muitos as questão ambientais e passa por uma reacomodação com o Brasil, e leva a um resultado final positivo nas relações do Brasil com China.

Se o Brasil começar adotar atitudes mais sóbrias, a tendência é de uma retomada gradual e suave dos investimentos chineses no Brasil.

JC – A China se tornou o maior parceiro comercial da Europa em 2020 e pode ter um arrefecimento da guerra comercial no governo Biden. Como isso tende a afetar o direcionamento dos investimentos e as compras dos chineses do Brasil?

Carvalho – O Brasil perdeu o posto de maior parceiro comercial da Argentina para a China, também no ano passado. Esse é um ponto importante de análise e cuja perspectiva não está tendo a devida atenção pelo País. O Brasil abriu mão não só da Argentina como da América Latina como um todo. E penso que a retomada e aumento dos negócios do Brasil com a China também passa pela retomada do Brasil com a região, ou ao menos com o Mercosul. O Brasil deveria usar da potência que é dentro da América Latina para elevar a parceria com a China a outro nível.

Não adianta só ficar na questão bilateral, que me parece seguirá equivocada. O foco deveria levar em conta os acertos no entorno do Brasil. E dentro do Brasil começam a surgir acordos de governos estaduais diretos com a China, como de São Paulo, para suprir essa lacuna do governo federal, assim como de empresas. Cada vez mais empresas nos procuram para tratar diretamente com China, sem depender do governo, já que temos na Veirano um escritório em território chinês.

JC- Mas o fato de as empresas precisarem recorrer a acordos e negociações bilaterais individuais não é preocupante e frágil, já que precisam do governo fazendo o meio de campo?

Carvalho – Em visão de longo prazo, havendo esses diversos atores, pode até melhorar as relações lá na frente, neste ou num próximo governo, de forma continua.

As empresas sabem que a economia se move para a região euroasiática, mas temos também que salvar o que se tem com América do Sul também. Cada País acaba tendo uma política própria, especialmente aqueles voltados para o Pacífico – o que é importante nos negócios com a China – como Argentina e Chile. E a China tem uma estratégia muito clara do que quer na região. Brasil e China estão para discutir agora o plano bilateral decenal, para 2022 a 2032, e nesta sexta feira, 5 de março, começa a Assembleia Popular em Pequim para aprovar seu 14º Plano Quinquenal, com algumas metas para até 3035, uma novidade. O Brasil deve observar o plano chinês e valorizar o acordo decenal brasileiro. Os chineses valorizam muito o planejamento, como um mapa do caminho que precisa ser levado em conta pelo governo brasileiro.

A tecnologia e as energias limpas são, com certeza, grandes drivers que terão fundamental e ampliada presença no planejamento chinês, com energia elétrica, solar e eólica.

JC – No agronegócio o Brasil tem uma grande dependência da China. E sabe-se que a China está buscando diversificar fornecedores e reduzir a necessidade do grão brasileiro. Qual o risco que vivemos hoje na soja?

Carvalho – O risco é total. Especialmente a longo prazo. Os chineses já perceberam, também pela pandemia, assim como todos os países, que deve diversificar fornecedores e a cadeia de suprimentos, produtos e insumos. No caso da soja, a China percebe isso pelas hostilidades que teve não só com o Brasil como também com os Estados Unidos, dois de seus grandes fornecedores. Estão buscando novos fornecedores de soja na Tanzânia, na Rússia e também da Argentina, onde fizeram investimentos para incrementar a produção por lá, e sobretudo na própria Ásia.

Então, o risco é grande para o Brasil. A economia chinesa é uma extensão da cultura chinesa, onde a continuidade, a harmonia e o bom relacionamento são fundamentais.

JC – Mas planejamento e continuidade, que o senhor também mencionou anteriormente, não são justamente duas grandes fragilidades do Brasil, onde quase tudo muda a cada governo? Haveria uma confiança chinesa em um plano acordado de 10 anos com o Brasil?

Carvalho – É uma boa pergunta para um grande desafio das democracias, na verdade. A democracia permite e tem a grande vantagem de a população escolha diretamente seus representantes. O problema, em boa parte dos países, é a conclusão de projetos e a eficiência do setor público. Isso porque é comum que um governante entre e queira passar a borracha em cima de tudo que fez o antecessor. É um problema de insegurança que entra naquele velho e conhecido Custo Brasil, observado pelos investidores. Mas neste sentido eu diria que os chineses ainda são os estrangeiros mais dispostos a percorrer o caminho pedregoso e cheio de obstáculos dos investidores no Brasil. Sobretudo porque eles olham tudo isso em uma perspectiva de longo prazo. Pelas conversas que tenho com autoridades chinesas, se sobressa a visão que o o País é tão grande, com recursos tão abundantes e com população igualmente significativa que não tem como dar errado. Mas que há, sim, problemas circunstanciais e momentâneas. Os chineses veem o momento atual como um parêntese na história das relações com o Brasil.

Fonte: Jornal do Comércio

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