Chanceler Ernesto Araújo faz afagos à China

José Cruz/Agência Brasil

Araújo: "A China pode ter no Brasil um grande parceiro para seu crescimento"

Após o mal-estar gerado com o setor de agronegócios por causa de declarações polêmicas contrárias a China, o chanceler Ernesto Araújo fez ontem afagos aos asiáticos e defendeu o aprofundamento da parceria comercial do Brasil com o país.

A uma plateia formada por executivos e empresários que participaram de evento promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em Brasília, o ministro das Relações Exteriores disse que o Brasil tem que "pensar grande" no mercado global e que tem muito a aprender com os chineses. E reforçou que o agronegócio vem recebendo atenção especial do Itamaraty, que criou um departamento voltado exclusivamente para promoção e negociações do setor.

"A China pode ter no Brasil um grande parceiro no crescimento de sua economia. A China é e continuará sendo um parceiro fundamental para o Brasil", afirmou Araújo. Porém, o chanceler demonstrou preocupação com barreiras comerciais impostas por Pequim nos últimos anos, como as salvaguardas às exportações brasileiras de açúcar.

No evento, o presidente da CNA, João Martins, lembrou dos desencontros do setor com parte do governo na área internacional nos primeiros meses da gestão de Jair Bolsonaro, mas disse que as divergências com o ministro Ernesto Araújo são páginas viradas. "Mas as relações com a China vão evoluir. E precisamos mostrar que não temos apenas soja para exportar aos chineses. Temos, por exemplo, uma demanda antiga para o comércio de frutas que esperamos ser destravado agora".

O secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Orlando Leite Ribeiro, que representou a ministra Tereza Cristina no evento, também descartou que exista qualquer mal-estar no momento e avaliou que a aproximação do governo Bolsonaro com os EUA não é um problema para os negócios com a China ou com outros países.

Outro que sinalizou com avanços na parceria bilateral foi o embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming, que fez questão de destacar que a demanda do país asiático por produtos agropecuários continuará a aumentar. Ele reconheceu que a visita de Tereza Cristina à China, em maio, deverá servir bem a esse propósito.

"Estamos dispostos a ampliar o acesso a produtos agrícolas. E a ampliar a cooperação entre nossos países na agropecuária", afirmou o embaixador. "Nos últimos anos, houve benefícios para os dois. Trata-se de um exemplo mundial de cooperação entre países emergentes".

No Ministério da Agricultura, a expectativa é que essa "disposição" se reflita em resultados concretos e imediatos. Na área de carnes, por exemplo, a ministra vai tentar destravar a habilitação de um número maior de frigoríficos exportadores, que era esperada no fim do ano passado e não saiu.

Segundo o secretário Orlando Leite Ribeiro, o Ministério da Agricultura continua negociando com Pequim maneiras de sanar as inconformidades detectadas por uma inspeção feita por técnicos do país asiático a dez frigoríficos brasileiros em novembro, que barraram a habilitação de novas unidades.

A expectativa era que a auditoria culminasse na habilitação de até 78 nova plantas. "A missão encontrou inconformidades que não são graves, mas estamos analisando com eles o que fazer para avançar nesse tema", afirmou Ribeiro a jornalistas no evento da CNA. Ele ponderou que, apesar de já ser um grande exportador de proteínas animais, o Brasil tem potencial para vender "muito mais", sobretudo num momento em que a China vem sofrendo com os estragos causados pela peste suína africana – o surto pode comprometer mais de 30% do rebanho suíno chinês.

"A China passa por um momento muito grave, e quem tem as maiores condições de suprir essa demanda [por carne suína] é o Brasil. A disposição é grande para colocar esse relacionamento em outro patamar", disse. No primeiro trimestre deste ano, as exportações do agronegócio brasileiro à China, lideradas pela soja em grão, renderam US$ 6,8 bilhões – 30,5% da receita total dos embarques setoriais.

Por Cristiano Zaia | De Brasília

Fonte : Valor