CGU constatou falhas graves em auditoria ao Ministério da Agricultura e Conab

Fonte:  Ruralbr

Ministro Mendes Ribeiro Filho recebeu resultados nesta terça, dia 29

Atualizada às 17h25

O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Mendes Ribeiro Filho, recebeu, nesta terça, 29, os relatórios finais das auditorias feitas pela da Controladoria Geral da União (CGU) na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e no Ministério. Foram contatadas falhas graves em processos realizados nos órgãos. As auditorias especiais foram realizadas por determinação da presidente Dilma Rousseff, para apurar denúncias de irregularidades. Em agosto, o então ministro Wagner Rossi pediu demissão após ser citado em diversas denúncias.

Além de considerar as supostas irregularidades em licitações e contratos no âmbito do Ministério, a Controladoria incluiu outros processos licitatórios e fez uma ampla análise da execução dos principais programas da Conab, como o Prêmio para Escoamento da Produção (PEP).

Irregularidades no Ministério da Agricultura

Fundasp

Sobre a denúncia que relacionava a contratação da Fundação São Paulo (Fundasp), mantenedora da PUC-SP, à suposta atuação de lobista dentro do Ministério, a CGU concluiu que houve, efetivamente, a pré-definição da entidade contratada, com montagem processual e pesquisa de preço eivada de vícios – vez que uma proposta foi fraudada e outra formulada por instituição cujo proprietário é também o coordenador de MBA da PUC- SP – com o intuito de demonstrar que a proposta apresentada pela Fundasp era a mais vantajosa para a Administração Pública.

Essa contratação direta, sem licitação, resultou em preços superiores aos de mercado, além do pagamento por serviços de consultoria desnecessários e que não tiveram sua execução comprovada, gerando prejuízo de cerca de R$ 1,1 milhão aos cofres públicos.

Quanto à notícia de que um lobista teria redigido a exposição de motivos para a contratação da Fundasp, não foi possível comprovar tal fato. Contudo, ficou comprovado que a pessoa denunciada possui empresa que presta serviços à PUC-SP, mantida pela Fundação São Paulo e tem uma filha empregada em uma empresa terceirizada que mantém contrato com o Ministério.

Serviços gráficos

Em relação à denúncia ligada a não renovação contratual com a Gráfica Brasil Ltda, a CGU concluiu que o contrato firmado com a gráfica apresenta falhas graves, faltando, por exemplo, a demonstração da real necessidade do serviço. A Controladoria considerou improcedente a justificativa do Ministério segundo a qual após realização de novo certame licitatório, a empresa vencedora ofereceu preços mais vantajosos, visto que o novo contrato tratou de objeto distinto, em que pese tratar-se de serviços gráficos.

Quanto à denúncia de que já estava pré-definida a empresa que seria contratada pelo Ministério para prestação de serviços de comunicação, o relatório da CGU apontou a ocorrência de falhas graves nas diversas etapas do processo licitatório, tais como: ausência de estudo de demanda; pesquisa de preço irregular; deficiências no projeto básico; inconsistência no edital; habilitação indevida de licitante; celeridade inusitada em certas fases do processo – tudo apontando para ilicitudes e danos ao interesse público.

Já em relação ao suposto favorecimento à empresa Ourofino Saúde Animal Ltda, na obtenção de licença para produção e comercialização de vacina contra febre aftosa, a Controladoria concluiu que não há evidências que confirmem o que foi denunciado na imprensa. De acordo com a documentação analisada pelos auditores, ficou comprovado o cumprimento dos requisitos constantes da legislação pertinente ao tema.

Outras apurações

A CGU também apurou que as aquisições de impressoras e scanners pelo Ministério, em 2010, foram excessivas, não ficando demonstrada sua necessidade; tanto isso é verdadeiro que existe um grande número de equipamentos ainda estocados. Além disso, foram constatadas falhas graves nos procedimentos licitatórios, relacionadas à pesquisa de formação do preço referencial, ausência de negociação das propostas de preços e irregularidades na habilitação de licitantes.

A Controladoria constatou falhas graves também no processo de contratação de empresa especializada para fornecimento de seguro saúde para adidos agrícolas (cobertura médico-hospitalar a servidores do Ministério que prestam assessoramento junto às missões diplomáticas brasileiras). A CGU identificou prejuízo à competitividade de potenciais prestadores de serviço; pagamento a maior; dispensa ilegal de licitação; distorções evidentes de preços; e alterações fraudulentas.

Da mesma forma, foram identificados problemas em processo de aquisição de suprimentos de informática pelo Ministério: falhas na formação do preço referencial da licitação, bem como morosidade do órgão em aplicar penalidade à empresa contratada, pela não entrega de cartuchos para impressoras – o Ministério somente aplicou multa à empresa, por descumprimento contratual, após instalada a Auditoria Especial pela CGU.

O trabalho de auditoria também encontrou irregularidades na contratação de serviços de análise laboratorial para detecção de resíduos de agrotóxicos e contaminantes em amostras oriundas do controle do Ministério no território brasileiro. A CGU constatou que o preço de referência da licitação foi estabelecido acima dos preços praticados no mercado, o que facilitou, inclusive, a majoração de alguns custos por parte das empresas participantes.

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Irregularidades na Conab

Na Conab, a auditoria da CGU confirmou a denúncia de que a empresa Commerce Comércio de Grãos Ltda, que recebeu da Conab, por meio de sua filial em Jataí/GO, cerca de R$ 6,5 milhões, em 2011 e outros R$ 916 mil em 2010, está registrada em nome de “laranjas” e tem sede de fachada. O fato foi comprovado após visita ao local, em Jataí.

Seus verdadeiros proprietários possuem também outras empresas registradas em nome de empregados. Entre elas encontram-se a Villagio, beneficiária de mais de R$ 7 milhões em 2010 e 2011, e a Exporta, recebedora de R$ 2,1 milhões nos dois anos. Juntas, as três empresas receberam mais de R$ 16,6 milhões dos cofres públicos, para aquisição de milho em grãos, junto a produtores rurais.

Ocorre que as empresas impunham deságio aos produtores, pagando-lhe menos do que o preço mínimo fixado pelo governo. O prejuízo estimado decorrente do descumprimento do preço mínimo e do limite de aquisição por produtor, praticados pelas empresas Villagio e Exporta em aquisições de milho realizadas junto a alguns produtores rurais entrevistados pelos auditores, passa de R$ 1,1 milhão.

Aliás, trabalhos feitos em campo pela CGU sobre as operações de Prêmio para Escoamento de Produto (PEP) evidenciaram a disseminação da prática de cobrança de deságio, já apontada pela Superintendência de Fiscalização de Estoques, da Conab, em numerosos laudos de fiscalização, sem providências efetivas da companhia.

As análises indicaram que, mesmo sendo eficaz quanto ao escoamento da produção, a PEP apresenta deficiências graves quanto ao objetivo de remunerar o agricultor pelo preço mínimo estabelecido pelo governo, tendo gerado, somente em 2010, prejuízo evidenciado aos cofres públicos da ordem de R$ 20,5 milhões e prejuízo potencial de R$ 228 milhões em subvenções pagas indevidamente a empresas que não respeitaram as regras do programa.

Dez mil processos

O relatório da CGU confirma também a denúncia de irregularidade no pagamento do débito de R$ 8,2 milhões à empresa de armazenagem Renascença Armazéns Gerais Ltda. A ordem bancária foi assinada pelo então Diretor Financeiro da Conab, embora pelas normas da Companhia ela devesse ser assinada também pelo presidente.

Quanto às supostas cobranças de propina por parte de dirigentes da Conab às empresas Caramuru e Spam, a CGU não pode confirmar tais denúncias, uma vez que para isso não são adequados os instrumentos de auditoria, e sim os de investigação policial, como a quebra de sigilos telefônico e bancário.

No que se refere aos processos judiciais, sejam os cíveis (como os que envolvem a Renascença, Caramuru e Spam), ou ações trabalhistas, a CGU concluiu que a defesa da Conab é deficiente, “tanto por parte dos escritórios terceirizados contratados, como da parte da Procuradoria e das áreas administrativas que dão suporte à defesa da Companhia em juízo”.

De acordo com o relatório da CGU, é urgente a reestruturação da área jurídica da companhia, “visando tornar efetiva a defesa e supervisão de todo o contencioso da Conab, haja vista que as ações na esfera cível e trabalhista superam 10 mil processos judiciais”.

Terreno em Brasília

Com relação à venda de um terreno de propriedade da Conab, localizado em área valorizada de Brasília, o relatório da CGU conclui que, apesar de autorizado pelo Conselho de Administração, o negócio foi feito de forma “prematura e sem as devidas cautelas de preservação e valorização do ativo imobilizado da Companhia, causando-lhe prejuízo”.

Com efeito, o terreno fica em área destinada originalmente a edificação de clubes esportivos (o que reduz muito o seu valor venal) e a administração da Conab foi negligente ao não requerer, junto aos órgãos competentes do Governo do Distrito Federal, a sua reclassificação, como fizeram outros proprietários de terrenos vizinhos. Tal providência teria aumentado consideravelmente o valor do imóvel.

Problemas gerenciais

No Prêmio para Escoamento de Produto, um dos programas analisados pela CGU, as deficiências são gritantes. As análises feitas revelam que o programa, embora eficaz quanto ao escoamento da produção, não assegura, efetivamente, ao produtor, a remuneração pelo preço mínimo estabelecido pelo Governo Federal. Os prejuízos aos cofres públicos em razão de pagamentos indevidos a empresas arrematantes que não respeitam as regras do programa são estimados em R$ 228 milhões, nos últimos dois anos.

Também em relação ao programa Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro), as análises revelaram fragilidades dos controles internos da Conab, bem como a prática de irregularidades que comprometem a finalidade da política pública, especialmente em relação a pagamento a arrematantes falecidos e a inexistência de dados dos cooperados beneficiários do programa.

A auditoria da CGU identificou ainda graves problemas gerenciais no escoamento de estoque (pagamento de frete). O sistema utilizado para o leilão de frete apresenta, entre outros problemas, grave comprometimento no gerenciamento dos dados, devido à inexistência de registros dos reais autores dos lances ofertados, identificando apenas as bolsas de onde partiram.

Esse fato dificulta a aferição da própria autenticidade do resultado de fechamento do leilão, uma vez que a Companhia não possui, nessa etapa, informação que permita validar a identidade do arrematante, informada pela Bolsa em momento posterior.

Muitos outros problemas gerenciais foram constatados ainda na alienação de imóveis em geral, na contratação de serviços de mão-de-obra braçal, e, como já citado, na área jurídica da companhia.

> Veja o documento na íntegra

COM INFORMAÇÕES DA CGU E MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

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