Cerrado não tem vez na Conferência Rio+20

Segundo maior bioma da América do Sul, que ocupa 22% do território nacional, o Cerrado praticamente passou batido na programação da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, evento aberto ontem no Rio de Janeiro, que segue até o dia 22. Na programação geral da conferência – que reúne chefes de Estado e trata de temas gerais – e na Cúpula dos Povos, não há nenhuma menção ao Cerrado brasileiro. Ele só aparece na videoinstalação do artista plástico Siron Franco e no Fórum dos Secretários Estaduais do Bioma Cerrado, que será realizado no dia 18.

Outros biomas, como Mata Atlântica e Amazônia, são tema de reuniões, mesas-redondas e outras discussões na Cúpula dos Povos e na programação paralela do evento – milhares de atividades estão previstas para esses dez dias de conferência. Ambientalistas ouvidos pelo POPULAR creditam essa baixa visibilidade à pequena mobilização das próprias pessoas que têm interesse na preservação do bioma e também à força da agroindústria que, na opinião deles, tem interesse na manutenção das condições atuais do bioma, enquanto os ambientalistas defendem uma legislação própria para o Cerrado, devido não só à sua riqueza em biodiversidade, mas também a suas várias especificidades.

O geólogo Alan Kardec Alves de Oliveira, professor do Instituto do Trópico Subúmido (ITS) da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás, observa que o Cerrado é o único bioma plano altimétrico no Brasil (tem pouca declividade), o que favorece a agricultura mecanizada. "São as condições ideais para o agronegócio economicamente exportável, caracterizado por grandes lavouras de monocultura, como soja, o que favorece o capital internacional", diz Alan. "Temos poucos defensores do Cerrado, a não ser alguns ambientalistas", reconhece o professor do ITS.

Ele acrescenta que no Nordeste brasileiro predomina a agricultura de subsistência e nos Estados do Sul do País é mais frequente aAGRICULTURA FAMILIAR, com pequenas propriedades, o que não favorece a mecanização industrial. Sobre os demais biomas, Alan pondera que a Mata Atlântica, além de não ter condições geográficas para a mecanização, é protegida por lei. "A Amazônia tem os olhos do mundo sobre ela, tudo o que ocorre ali tem repercussão internacional", diz.

BANCADA RURALISTA

Além de não ter defensores de grande expressão, os interesses dos ruralistas no Congresso Nacional incidem justamente sobre as áreas de Cerrado. Deputados e senadores da bancada ruralista representam os Estados que têm áreas de Cerrado, que são 19 mais o Distrito Federal. "A bancada ruralista está assentada nos planaltos do Centro-Oeste brasileiro, que é a única fronteira agrícola do País", diz Alan Kardec.

Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, John Mivaldo Silveira concorda que as entidades ambientalistas precisam se fortalecer para fazer frente ao lobby dos fazendeiros. "Falta assimilar, pelos próprios ambientalistas, a importância do Cerrado para o País." Ele também defende a realização de pesquisas, por órgãos oficiais, para a produção sustentável no Cerrado.

Fonte: O POPULAR – GO Carla Borges

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