Catador é reconhecido por serviço ambiental

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Severino Lima Junior: "Mobilizei os catadores e saímos vitoriosos na busca de um modelo de trabalho mais digno"

O nome dele é Severino e a história de vida que o levou a participar dos momentos decisivos sobre a gestão de resíduos no país, sentando-se à mesa com o alto escalão do governo e executivos de grandes empresas, começou com a venda de picolé para catadores no lixão de Natal, Rio Grande do Norte. Aos 12 anos, o menino descobriu que ganharia mais dinheiro fazendo o mesmo que seus amigos de bairro, garimpando materiais recicláveis. Drogas e violência foram ameaças constantes, até a prefeitura decidir dar fim ao lixão. Qual o destino daqueles jovens e suas famílias? De onde retirariam a renda?

"Diante do futuro incerto, mobilizei os catadores e saímos vitoriosos na busca de um modelo de trabalho mais digno, sem abandonar os resíduos", conta Severino Lima, um dos primeiros catadores do país a se reunir com o Ministério Público e a frequentar gabinetes de prefeitos. Na virada para o século XXI, já adulto e cheio de planos ajudou a estruturar uma associação local e tornou-se um dos mentores do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), criado em 2001. Desde então, a vida mudou bastante para quem tinha vergonha de falar sobre o ofício de catador na escola.

Severino viajou para conhecer a reciclagem em outras partes do mundo e começou frequentar seminários e reuniões que iriam decidir o futuro da gestão do lixo no país, durante as negociações para a Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em 2010. "Passamos a ser mais valorizados e poucos de nós acreditavam que chegaríamos a esse ponto", diz. A partir de sua liderança, a cidade de Natal começou a remunerar cooperativas de catadores pela coleta seletiva nas residências.

O exemplo ilustra o fortalecimento da atividade, que começa a ser beneficiada pelos serviços que presta ao ambiente. A partir da nova lei de resíduos, que dá prioridade à participação das cooperativas na coleta e triagem dos materiais, e das políticas de inclusão social do governo federal, a categoria passou a ter voz ativa e acesso a recursos financeiros. "Trata-se de um elo fundamental para mudanças na gestão de resíduos e para a superação da pobreza", ressalta Alfredo Albano Junior, diretor-executivo em exercício da Fundação Banco do Brasil (FBB). Em dez anos, a instituição investiu R$ 100 milhões no fortalecimento dos catadores, juntamente com o Ministério do Trabalho e Emprego, BNDES e Petrobras.

No Programa Cataforte, o alvo inicial foi a capacitação e a compra de caminhões para cooperativas. Dos 140 veículos previstos, 121 foram entregues até o momento. "Os cooperados recebem assistência técnica para fazer um plano de logística e depois caminhar com as próprias pernas", explica o executivo. Pretende-se fixar a figura do catador na cadeia da reciclagem e consolidar a formação de redes de comercialização de materiais recicláveis para evitar atravessadores e melhorar preços. Mais R$ 203 milhões estão prometidos para uma nova etapa, prevendo estruturação de negócios e operação de logística reversa.

Além da verba pública, há o investimento planejado pelo setor empresarial para aumentar a taxa de recuperação de embalagens e outros materiais pós-consumo, conforme determina a nova lei de resíduos. A proposta apresentada ao governo por uma coalização de associações empresariais prevê investimentos para triplicar o número de cooperativas de catadores, de forma a expandir a coleta seletiva. O foco inicial seriam as 12 cidades que sediarão a Copa do Mundo, onde está concentrada grande parte da população urbana e dos resíduos gerados no país. Estudo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre) indica que, nesse período, o faturamento total das cooperativas dessas capitais poderia quadruplicar em relação aos valores de 2010, passando de R$ 56,4 milhões para R$ 231,5 milhões. Hoje os sucateiros e aparistas, que comercializam os resíduos recicláveis para as indústrias, absorvem 90% da receita com a triagem no Brasil.

Catadores, carroceiros, papeleiros, coletores. Seja qual for o nome dado a esses trabalhadores bastante conhecidos nas cidades, o fato é que a gestão de resíduos depende cada vez mais deles diante do avanço da urbanização, da industrialização e do consumo. Mesmo com o surgimento de processos automatizados de coleta, o tradicional trabalho dos "garimpeiros urbanos" dificilmente pode ser substituído em sua totalidade, no Brasil e em países com realidade social semelhante. Em território brasileiro, eles somam cerca de 1 milhão, sendo 20% organizados em associações ou cooperativas. E já são reconhecidos como uma categoria profissional, apesar do estigma e preconceito ainda existente em muitas cidades. "Temos uma cara e um nome com sobrenome", ilustra Alex Cardoso, membro da coordenação nacional do MNCR.

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Fonte: Valor | Por Sergio Adeodato | Para o Valor, De São Paulo

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