Carvão volta à disputa nos leilões de energia

Projetos do grupo MPX seriam os mais adiantados no Estado e absorveriam mais de R$ 6 bilhões em investimentos

Jefferson Klein

Depois de cerca de quatro anos fora da concorrência de leilões de energia, os projetos de usinas a carvão voltarão a participar desses certames. De acordo com o governador Tarso Genro, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, confirmou o retorno dessa fonte para disputar o leilão que acontecerá no segundo semestre deste ano.
As informações sobre o aproveitamento do carvão já vinham sendo divulgadas nos últimos dias, mas na audiência de ontem, em Brasília, foi a primeira vez que o ministro Lobão tornou pública essa intenção. “É muito importante a notícia para o Rio Grande do Sul, obviamente temos que ter todos os cuidados ambientais”, destacou o governador. Ele ressalta que o Estado detém os maiores reservatórios do mineral no País (cerca de 90%).
Conforme Tarso, o certame será um A-5, ou seja, com prazo de cinco anos para fornecer a energia. Os leilões são os mecanismos desenvolvidos pelo governo federal para que projetos de novas usinas comercializem a futura energia a ser gerada e, por consequência, saiam do papel. O presidente da Associação Brasileira do Carvão Mineral (ABCM), Fernando Zancan, espera que em breve o governo divulgue mais detalhes sobre o leilão, inclusive a data em que será realizado.
O dirigente revela que os comentários nos bastidores são de que o carvão não concorrerá no certame contra os projetos eólicos, mas com hidrelétricas e outras térmicas como, por exemplo, de gás natural e biomassa (queima de matéria orgânica). Zancan defende que é necessário propiciar condições isonômicas para o carvão enfrentar outras fontes. Os empreendedores do setor temem questões como grandes compensações ambientais e modelos de financiamentos não tão vantajosos.
O presidente da ABCM aponta os projetos da MPX, no Rio Grande do Sul, e da Usitesc, em Santa Catarina, como os mais avançados para concorrer nesse leilão. As usinas da MPX que serão construídas no município de Candiota – UTE Sul (727 MW) e a UTE Seival (600 MW) -, juntas, representarão investimentos de mais de R$ 6 bilhões, com a expectativa de gerar cerca de 8 mil empregos diretos durante a implantação. A capacidade instalada de geração dos dois complexos corresponde a cerca de 35% da demanda média de energia do Estado.
Na sexta-feira da semana passada, a alemã E.ON fechou os termos finais de um acordo para compra de uma fatia maior na MPX, braço de energia do grupo de Eike Batista. Segundo fontes próximas ao negócio, os alemães vão desembolsar R$ 1,8 bilhão por metade das ações de Eike – que representam cerca de 27% do capital da companhia.
O diretor da Copelmi Carlos Faria concorda que os empreendimentos a carvão da MPX encontram-se em uma etapa mais adiantada do que outros propostos. Para o dirigente, as usinas a carvão, em condições de igualdade de disputa, podem competir em preço com as outras fontes térmicas, e até mesmo com a hídrica.
Sobre competitividade, o presidente da Companhia Riograndense de Mineração (CRM), Elifas Simas, lembra que a MPX firmou um protocolo de intenções com o governo do Estado prevendo isenções fiscais para aumentar as suas chances na concorrência de um leilão. O dirigente espera ainda que muitos outros projetos no Estado possam se tornar uma realidade no futuro. “Para isso, é preciso implementar uma política para o carvão de longo prazo, esse leilão não pode ser algo isolado”, sustenta o presidente da CRM.
Além dos empreendimentos da MPX, o Rio Grande do Sul conta com outros quatro projetos (CGTEE Fase D, Termo Pampa, CTSul e Eleja) a carvão encaminhados. Todos, somados, significariam um investimento de mais de R$ 15 bilhões no Estado.

Usinas térmicas garantem maior segurança ao sistema elétrico

Depois das dificuldades verificadas para o fornecimento de energia durante esse verão, é evidente que o Brasil precisa de mais geração, afirma o secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Caleb de Oliveira. Ele argumenta que o carvão implica maior segurança ao sistema elétrico, pois é uma energia que não oscila com as condições meteorológicas, como a hídrica e a eólica.
Sobre a questão ambiental, o dirigente salienta que é uma preocupação justa, mas a tecnologia para a diminuição dos impactos das térmicas tem se desenvolvido muito nos últimos anos. Entre outros benefícios do carvão para o Rio Grande do Sul, Caleb cita a menor dependência da “importação” de energia dos outros estados e a redução da exposição a problemas com as linhas de transmissão.
O secretário festeja o fato de que as reservas gaúchas de carvão concentram-se na Metade Sul, uma região que, historicamente, sofre dificuldades econômicas. “O carvão é uma oportunidade de investimento e de geração de renda e emprego”, enfatiza o dirigente.
O presidente da CGTEE, Sereno Chaise, também elogia a disposição do Ministério de Minas e Energia de voltar a avaliar a possibilidade da realização de leilões para o carvão, incentivando a construção de novas térmicas, cuja vantagem é a não dependência das condições climáticas. “Nós não podemos confiar sempre no regime de chuvas, nem de ventos, para afastar os riscos de abastecimento”, diz Chaise.
Apesar dos argumentos dos empreendedores do setor, o mineral está longe de ser uma unanimidade e sofrerá oposição. A conselheira da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) Edi Xavier Fonseca reforça que, mesmo com a tecnologia atual, o carvão é altamente poluidor. “O Brasil não precisa seguir o exemplo de outros países, ele pode se focar em suas vocações”, sugere Edi. Ela indica as gerações a partir de fontes renováveis, como a eólica e a solar, como alternativas.

Fonte: Jornal do Comércio

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