Carlos Nabinger: Repensando os sistemas de produção

Altos rendimentos agrícolas são dependentes da fertilidade do solo, o que tem sido associado a altos níveis de adubação e sistemas superespecializados. No entanto, à luz de recentes estudos em sistemas que integram distintas atividades produtivas na mesma área, os chamados sistemas ILPF (integração lavoura-pecuária-floresta) e que incorporaram outra prática recente – o plantio direto – novas propriedades da fertilidade do solo e nutrição de plantas emergiram.

Nesses sistemas, a possibilidade de manter cobertura vegetal viva durante a maior parte do ano, além de aumentar os teores de carbono no solo (sequestro de C via fotossíntese), melhora suas condições físicas, aumentando a geração e a capacidade de infiltrar e reter água, diminuindo o escorrimento superficial e a erosão. Estas condições também determinam melhoria na atividade microbiana, determinando, em conjunto, solos mais férteis.

A inclusão de pastos e do gado no sistema acentua ainda mais esses efeitos, pois as raízes das forrageiras geralmente exploram camadas mais profundas do solo e tem alta taxa de renovação, imobilizando mais C. A exportação de nutrientes via produto animal é muito baixa em relação à exportação via grãos. Desse modo, a maior parte dos nutrientes incorporados na fase pastagem dos sistemas ILP retorna ao solo como urina e fezes. Com isso, diminui a necessidade de fertilizantes em relação às mesmas produções em áreas diferentes.

Mas não se trata apenas de subtrair nutrientes exportados de nutrientes aplicados. Mais do que isso, as excreções animais aumentam as populações de organismos microbianos do solo. Esses imobilizam os nutrientes em forma orgânica nas suas células evitando que os mesmos fiquem na forma mineral, livres no solo e sujeitos a perdas por lixiviação e volatilização.

Com a morte posterior dos microorganismos, esses nutrientes ficam novamente disponíveis para a cultura subsequente via mineralização. Mas, a presença de urina e fezes também aumenta a população de besouros, minhocas e outros elementos da mesofauna, os quais formam canais no solo, que serão ocupados por raízes e que também possibilitam maior aeração, maior infiltração de água e a movimentação de nutrientes em profundidade.

Assim, apesar de ser apenas uma parte da solução, os sistemas ILP representam uma forma mais sustentável de produção de alimentos ao diversificar os sistemas, utilizar menos fertilizantes químicos, construindo solos mais saudáveis e reduzindo os custos em insumos e a poluição ambiental.

Carlos Nabinger é mestre em Fitotecnia e doutor em Zootecnia, professor da Faculdade de Agronomia da UFRGS
nabinger@ufrgs.br

Fonte:  Zero Hora

07/01/2017 – 06h32min | Atualizada em 07/01/2017 – 06h32min

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