"Capital do tomate" vê produção cair pela metade

Roberto Jayme/Valor / Roberto Jayme/Valor
Conforme o agricultor Adair Balduino, falta segurança para produzir tomate: "É uma atividade difícil. Uma hora o preço está bom. Na outra, não paga nem os custos"

Depois de plantar tomate por mais de 15 anos em Goianápolis, cidade no interior de Goiás conhecida como a capital do tomate, Adair Balduino Ribeiro se deparou com preços muito acima da média para a caixa do produto neste início de ano. O movimento de alta começou no fim de 2012 e atingiu seu ápice na Semana Santa. Balduino chegou a receber até R$ 100 pela caixa de 22 quilos de tomate de mesa, enquanto a média para o mesmo período é de R$ 35.

Neste início de ano, período conhecido como "época das águas", a produtividade é menor e os custos mais elevados, o que normalmente diminui a oferta e pressiona os preços do fruto.

Embora felizes com os preços, os produtores não tiveram motivo para comemorar a produtividade de seus pomares. O excesso de chuvas e pragas afetou seriamente a colheita. A produtividade dos tomates que estão sendo colhidos por Balduino é de 250 caixas por mil pés. Em safras anteriores, esse rendimento foi de 350 a 400 caixas por mil pés. "Mesmo com o preço lá em cima, perdi muito por causa da broca e da mosca branca", explicou.

Com a queda da produtividade, os preços dispararam e alçaram o tomate à condição de vilão número 1 da inflação no Brasil. Contudo, esse movimento está arrefecendo. Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostra que os preços do tomate na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) recuaram 48,50% no atacado e 46,17% ao produtor nas duas últimas semanas. A caixa que chegou a ser negociada a R$ 108,75 ao consumidor (ou R$ 85,47 ao produtor) já é vendida a R$ 56,00 (ou R$ 46 ao produtor).

Sérgio Pereira Lima plantou 60 mil pés de tomate e perdeu completamente sua produção devido ao excesso de chuvas, broca e mosca branca. Tentando aproveitar a alta dos preços, imediatamente começou o plantio em outra área para tentar aproveitar a fase. A colheita na Fazenda Santa Rita começa em junho e vai até setembro.

O ciclo do tomate é curto. Os produtores compram as mudas com 30 dias de estufa e as plantam. Após cerca de 70 dias, elas dão os primeiros tomates. Depois da primeira colheita, as plantas aumentam a produção e continuam produzindo por 45 a 80 dias, dependendo da época. Depois disso, as plantas são retiradas e a área recebe uma outra cultura. A fim de eliminar as pragas do local, os produtores nunca plantam tomate duas vezes seguidas na mesma área.

A broca, principal causa de prejuízos na lavoura, está presente durante todo o ano, mas sua incidência cresce na época de chuvas. A praga que atende pelo nome científico de "Neoleucinotes Elegantalis" é de difícil controle devido ao seu hábito noturno. O inseto bota seus ovos durante a madrugada. Eles são depositados nos frutos ainda pequenos, em formação. Após a eclosão, que leva em torno de quatro a cinco dias, ocorre a penetração da larva no vegetal, o que faz apodrecer seu interior, apesar da boa aparência externa.

O atual período de chuvas já é considerado crítico no Estado de Goiás. Em 2011 e 2012, os prejuízos devido ao clima e as pragas foram grandes. Por esse motivo, diversos produtores abandonaram o plantio em detrimento da soja e milho. "É uma atividade muito difícil. Uma hora o preço está bom. Na outra, não paga nem os custos da produção. Não existe segurança para produzir", disse Balduino. O tomate não está incluído na Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) do governo (ver matéria abaixo).

De acordo com dados da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), a área cultivada com tomate em Goianápolis caiu mais que a metade em apenas três anos. Em 2010, a área ocupada com o fruto na região foi de 2,5 mil hectares. No ano passado, o cultivo se restringiu a 1,1 mil hectares.

Após a alta nos preços, produtores que haviam abandonado a cultura em 2012 voltaram a destinar uma área de suas propriedades para o tomate. Portanto, a expectativa é que, a partir de junho, o preço da caixa caia consideravelmente. Muito produtores começaram a plantar em fevereiro e março e esperam colher a partir de maio os primeiros tomates. A expectativa dos produtores é de que o preço da caixa de 23 quilos chegue a R$ 15.

Motivo de piada nas redes sociais e alvo da revolta de consumidores, o tomate é apontado como o grande vilão da inflação de alimentos, que chegou a 13,48% nos últimos 12 meses. Contudo, o vegetal não foi determinante para a alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), já que o seu peso na cesta de consumo é pequeno. Os alimentos como um todo foram responsáveis por 60% da alta de 0,47% do IPCA em março, mas o tomate contribuiu com apenas 0,02% do resultado de março. No mês passado, o vegetal teve um peso de 0,33% do orçamento da família brasileira.

Excluindo o grupo alimentos, o IPCA foi de 0,25% no mês e 4,5% no acumulado dos últimos 12 meses. O índice acumulado em um ano alcançou 6,59%, acima do teto da meta de inflação. A alta no preço do tomate nos 12 meses encerrados em março foi de 122%.

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.
Leia mais em:

http://www.valor.com.br/empresas/3083960/capital-do-tomate-ve-producao-cair-pela-metade#ixzz2QFePSRe3

Fonte: Valor | Por Tarso Veloso | De Goianápolis, Anápolis e Corumbá de Goiás

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *