Capacidade dos reservatórios do Sul cai a 30%

FLORIANÓPOLIS, PORTO ALEGRE E BRASÍLIA – No início da semana, a energia armazenada nos reservatórios da região Sul ficou em apenas 30,3% da capacidade, o menor nível para esta época do ano desde pelo menos o ano 2000, período para o qual o Operador Nacional do Sistema (ONS) disponibiliza os dados. A estiagem deste início de ano levou à diminuição na geração de energia de diversas usinas em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Algumas usinas, inclusive, estão parando a operação de geração por alguns dias. De acordo com relatos de administradores de usinas, a parada na geração decorre de recomendação do ONS, que teria pedido alguns desligamentos neste momento para evitar um período mais complicado no futuro. O risco é que os reservatórios cheguem ao inverno – período mais seco – muito vazios.

Algumas das usinas que deixaram de gerar foram Machadinho, Foz do Chapecó e Campos Novos, em Santa Catarina. No Rio Grande do Sul, a baixa quantidade de chuva praticamente paralisou as três hidrelétricas da Companhia Energética Rio das Antas (Ceran), controlada pela CPFL Geração, no nordeste do Estado. A seca que afetou as usinas nos dois Estados não atrapalhou a operação de Itaipu, que bateu recorde de geração no primeiro trimestre.

Nas demais regiões, a situação é tranquila – os reservatórios estão com 77% da capacidade máxima no Sudeste/Centro-Oeste, 82% no Nordeste e 99% no Norte -, o que afasta riscos para a segurança energética do país como um todo.

Em Santa Catarina, a Machadinho, que tem capacidade de 1.140 MW, interrompeu a geração em 5 de abril e segue paralisada, enquanto Foz do Chapecó ficou parada por quatro dias, no início deste mês, e parou novamente no dia 14 por mais dois dias. A hidrelétrica de Campos Novos, com capacidade de geração de 880 MW, tem passado os fins de semana sem gerar e retoma as operações durante a semana, de maneira parcial. Campos Novos, quando é religada (durante a semana), opera com 30% da capacidade. A hidrelétrica Itá, com capacidade de 1.450 MW, não está parada, mas diminuiu a geração para, em média, 380 MW.

"Este é um período de estiagem mais prolongado que o usual. Fizemos esse racionamento agora para evitar algo mais drástico depois", explica Marcelo Chiarello, diretor-superintendente da Foz do Chapecó. A usina de Foz do Chapecó tem capacidade de geração de 855 MW, mas vem gerando – quando volta a operar – perto de 640 MW.

Alguns gerentes de usinas ouvidos pelo Valor em Santa Catarina explicam que parte das usinas está, fazendo um rodízio de paradas e religamentos, o que deve perdurar enquanto a situação de chuvas não se normalizar. "Estamos desligando a geração nos fins de semana e aproveitamos para fazer manutenções", afirma Volnei Delfes, gerente da hidrelétrica de Campos Novos. Há programação de manutenções até 30 de abril, quando se espera que volte a operar normalmente. Segundo ele, em 2009, houve período similar de estiagem, mas a usina operou em situação melhor do que agora: gerava cerca de 50% da capacidade.

De acordo com o diretor de produção da Tractebel Energia, José Carlos Cauduro Minuzzo, aconteceram três períodos de grande estiagem nos últimos 12 anos, que culminaram com a necessidade de paralisação da geração na hidrelétrica Machadinho: 2003, 2006 e 2009. Em 2009, a usina suspendeu a geração por 11 dias (não contínuos). Em 2006, a situação foi mais complicada: a usina ficou sem geração durante 61 dias.

O ONS mandou ligar nove térmicas a gás e a carvão no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Ao todo, elas estão gerando 1.320 MW médios, três vezes mais do que no mesmo período do ano passado, quando os reservatórios do Sul estavam com 91,3% de armazenamento. Para o ONS, as chuvas devem voltar com mais intensidade do que o normal a partir do fim de maio, na região.

O coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, Nivalde de Castro, lembra que o acionamento das usinas térmicas – mais caras e poluentes – aumenta a despesa de encargos de serviços do sistema e pode encarecer as contas dos consumidores finais nos próximos reajustes tarifários. "A conta é rateada entre todos os consumidores", lembra.

Outra consequência dos reservatórios mais baixos no Sul, segundo Castro, é a perspectiva de manutenção dos preços altos no mercado de curto prazo ao longo de 2012. Mesmo assim, ele elogia a gestão do ONS. "Essa estratégia traz segurança para a sociedade brasileira", afirma.

No Rio Grande do Sul, segundo o diretor-superintendente da Ceran, Marcelo Chiarello, as usinas que operam a fio d’água (sem reservatório) produzem energia apenas nos horários de pico. Conforme o executivo, a seca começou a atrapalhar as operações em outubro do ano passado e em março a geração média ficou em apenas 35% dos 190 megawatts (MW) de energia assegurada pelas usinas Castro Alves, Monte Claro e 14 de Julho. "E a média de abril deverá ficar igual ou pior", prevê.

A escassez de chuva também reduziu para 43% a acumulação de água do reservatório de Passo Real, o maior da Companhia Estadual de Geração e Distribuição de Energia (CEEE-GT), no rio Jacuí. No mesmo período de 2011, o nível estava em 89% e, como consequência, as três maiores hidrelétricas da estatal encerraram o primeiro trimestre com geração média equivalente a apenas 63,9% da energia assegurada das unidades, fixada em 381 megawatts (MW).

Segundo o chefe da divisão de engenharia da CEEE-GT, Marcelo Frantz, o ONS vem determinando despachos menores às usinas para preservar os reservatórios do Sul.

A extensão da estiagem no Sul chama a atenção. Geralmente, perderia força em fevereiro, mas neste ano se estendeu até abril, devido à intensidade do La Niña. As usinas têm trabalhado com a previsão de mais chuva a partir de maio.

(Vanessa Jurgenfeld, Sérgio Bueno e Daniel Rittner | Valor)

Fonte: Valor | Por Vanessa Jurgenfeld, Sérgio Bueno e Daniel Rittner | De Florianópolis, Porto Alegre e Brasília

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *