CAMPO & LAVOURA – Rio Grande do Sul terá safra menor de trigo, porém com preço recorde

Com 78% da área colhida, cereal teve a produtividade afetada em razão de geada e escassez de chuva durante o ciclo

A safra do trigo no Rio Grande do Sul chega à reta final escancarando duas faces distintas neste ano. Com 78% da área colhida até o momento, o cereal vive momento de valorização intensa, com o preço pago ao produtor atingindo patamar recorde. Por outro lado, o clima não ajudou os agricultores gaúchos, que tiveram de lidar com a ocorrência de geada e até mesmo com o retorno da estiagem durante o ciclo. Em meio a esse cenário, a produtividade está abaixo da esperada inicialmente e deve resultar em uma safra aquém das 2,29 milhões de toneladas obtidas em 2019.

Os prejuízos deixados pela estiagem na safra de verão e a boa perspectiva de preços na época do plantio levaram os agricultores gaúchos a reforçar a aposta no trigo neste ano. A área cultivada chegou a 915,7 mil hectares no Estado, segundo a Emater, alcançando o maior patamar desde 2014 e volume 20% maior do que no ciclo anterior. E a perspectiva de boa remuneração vem se confirmando mesmo com a nova oferta do produto chegando aos moinhos.

Em 6 de novembro, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a tonelada do trigo gaúcho era cotada a R$ 1.467,33, elevação de 111% em relação ao mesmo período do ano passado. É o maior valor nominal já registrado.

Argentina

Analista da consultoria Safras & Mercado, Jonathan Pinheiro explica que a alta do dólar é um dos principais fatores que induzem à elevação do preço do trigo, em um movimento semelhante ao verificado em outros grãos, como a soja e o milho. Além disso, a provável quebra na safra da Argentina, que pode cair de 22 milhões a 17 milhões de toneladas, contribui para manter o mercado aquecido. Os argentinos são os principais fornecedores de trigo para o Brasil e recém começaram a retirar o cereal dos trigais.

– Com a entrada do trigo argentino nos próximos meses, pode haver uma pequena retração nos preços até o final do ano. Mas, a partir de 2021, vemos espaço para o preço voltar a subir, ficando em nível até superior ao que estamos vendo hoje – avalia Pinheiro.

Impacto

Levando em conta a produtividade média dos anos anteriores, a Emater estimava, em junho, colheita de 2,19 milhões de toneladas no Rio Grande do Sul, 4% abaixo da temporada passada. O órgão de assistência técnica, porém, não atualizou a projeção após as adversidades climáticas.

As localidades mais afetadas pelo clima são as que concentram a maior parte do plantio, na metade norte. É o caso do Noroeste, impactado principalmente pela geada de agosto, que contabiliza redução de 50% na produtividade, segundo o escritório da Emater em Santa Rosa. Isso deverá derrubar a média do Estado como um todo.

– As primeiras lavouras plantadas foram severamente afetadas pela geada e as mais tardias, pela estiagem. Haverá, sim, quebra na safra, mas só saberemos o tamanho após a finalização da colheita – aponta Rogério Mazzardo, gerente técnico da Emater, mencionando que até o momento mais de 4 mil produtores acionaram o seguro agrícola por causa das perdas.

Cooperativas gaúchas, que recebem mais de 60% da colheita, tinham expectativa ainda maior para a safra gaúcha, na faixa de 3 milhões de toneladas. Agora, a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro-RS) estima produção entre 1,8 milhão e 2 milhões de toneladas. Assim, a quebra poderia chegar a 40% no Estado.

– O produtor fica um pouco frustrado, porque, pela segunda vez (a primeira foi a safra de verão), não teve colheita cheia em um momento com bons preços – resume Paulo Pires, presidente da Fecoagro-RS.

fernando.soares@zerohora.com.br

FERNANDO SOARES

Fonte : Zero Hora

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