CAMPO | Falta de oportunidades estimula vinda ao RS

O horário de expediente nos pomares geralmente é das 7h30 às 17h30, de segunda- feira a sábado. Nas horas vagas, os indígenas aproveitam para manter contato com os familiares que ficam no Mato Grosso do Sul, tomam tereré e escutam música.

A maior diversão para muitos deles ocorre no campo de futebol. Cada alojamento costuma ter uma cancha, que durante a semana serve de palco para o tradicional bate-bola.

Aos domingos, são organizados até mesmo campeonatos entre os times das aldeias dos safristas. Nos locais com mais de uma etnia hospedada, ocorrem duelos entre equipes formadas por guaranis, kadiwéus e terenas.

Curiosidades

Em um torneio de pontos corridos, o time campeão recebe como "troféu" produtos básicos usados no dia a dia, como sabão para lavar roupas, pacotes de bolachas e garrafas de refrigerantes.

– Cada aldeia tem três ou quatro equipes. Jogamos todos contra todos e quem ganhar mais partidas leva o prêmio – explica Adrian Fernandes, que compõe um time guarani-kaiowá.

A convivência no campo com safristas do Rio Grande do Sul e de outros Estados também gera curiosidade. O terena Ademilton Turibe revela que seus colegas gaúchos e paranaenses costumam fazer perguntas sobre o dia a dia nas aldeias.

– Nos perguntam se a gente vive pelado, se moramos em oca. Aí explicamos que não é assim que vivemos, que cada um tem sua casa na aldeia – conta Turibe.

A religiosidade é outro elemento presente nos pomares. Muitos índios que vêm ao Rio Grande do Sul são evangélicos e costumam realizar ao menos um culto a cada domingo.

Em alguns alojamentos foram montados locais para as celebrações, que são conduzidas mesclando idiomas indígenas e português. Algumas empresas ainda possuem capelas, que servem de refúgio espiritual para os indígenas católicos durante o período da colheita.

A falta de oportunidades de trabalho em Mato Grosso do Sul é um dos principais fatores que estimulam a vinda de indígenas ao Rio Grande do Sul. Desempregado há cinco meses, Cleberson Lescano, de etnia kadiwéu, não pensou duas vezes em aceitar o convite para integrar um dos grupos que saíram do município de Miranda com destino a Vacaria. Ele chegou à cidade no início de fevereiro e espera ficar até meados de abril, quando se encerra a colheita da variedade fuji.

– Está muito difícil, não aparece nada de trabalho lá. Conseguir o emprego aqui me deu um alívio – diz Lescano, estreante na colheita da maçã.

A maioria dos indígenas presentes nos pomares gaúchos nesta safra já veio em anos anteriores ao Estado. Conforme ganham experiência, muitos acabam progredindo nas funções dentro dos pomares.

O guarani-kaiowá Adair Gonçalves vem aos Campos de Cima da Serra há sete anos. A bagagem adquirida em meio às macieiras o levou ao posto de segurança no alojamento, o que lhe garante emprego formal com carteira assinada alguns meses além do período da colheita.

– Organizo as turmas que vão chegando e cuido para o pessoal não fazer bagunça – resume Gonçalves, que fica a cargo de uma fazenda com mais de 700 pessoas, sendo 70% índios das etnias guarani- kaiowá, kadiwéu e terena.

Eles costumam voltar para suas casas ao final da colheita, em abril, mas já há casos de quem decidiu fixar raízes no Rio Grande do Sul. Eliel Pereira, de etnia terena, veio em 2019 pela primeira vez para atuar como safrista e se apaixonou pelo trabalho com a fruta. Um dia tomou coragem para conversar com o supervisor da empresa, pediu emprego fixo e teve a solicitação atendida.

– Nunca tinha visto um pé de maçã na minha vida. Fui conhecendo como funcionava a colheita e tive a oportunidade de ficar. No futuro, quero trazer minha família – projeta Pereira, que tem uma filha de cinco anos.

Durante a colheita, ele monitora as turmas de safristas, compostas por seus antigos colegas de aldeia. Ao fim do período, ajuda a cuidar dos pomares, fazendo a poda e outras atividades relacionadas à manutenção das árvores.

Fonte: Zero Hora

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