CAMPO E LAVOURA – "Sou a primeira geração de executivas mulheres"

FLÁVIA PORTO, Diretora de Recursos Humanos da Yara Brasil

Foram experiências de vida que moldaram o caminho da paulista Flávia Porto. Formada em Psicologia, Gestão Empresarial, soma 25 anos de experiência em empresas de consultoria, tecnologia e serviços no país e no Exterior. Há três anos na Yara Brasil, tornou-se em 2021 a primeira mulher autodeclarada negra diretora de recursos humanos e uma das primeiras lideranças femininas no comitê executivo da empresa no país.

– Vim de uma condição de infância de vulnerabilidade social. Minha educação foi junto de ONGs. Então, acredito muito no poder da decisão de trazer para dentro da empresa o que de fato é representação da sociedade em que se vive – afirma.

Nessa entrevista, conta um pouco das ambições de transformação.

Você planejou sua carreira?

São 25 anos em recursos humanos, não me vejo fazendo outra coisa. Minha carreira nasceu quase que por acidente. Comecei a trabalhar muito jovem em um programa de aprendizagem de consultoria, que recrutava para grandes multinacionais. Entendi o que era o mundo corporativo, e me encantei por recursos humanos como uma área com poder grande de mobilização social. Desde criança, tive convivência com as parcerias público-privadas, todas ONGs que trabalhavam com processos de educação de jovens, fui muito ativa. Meu nascimento como profissional, veio daí. Tive certeza de que queria apoiar não só os grandes processos corporativos, mas contribuir para a carreira das pessoas e para a transformação da sociedade de alguma uma maneira.

E como entrou no agro?

Passei a maior parte da minha carreira na área de tecnologia. Que não só tem inovação como parte do DNA, mas ciclos muito curtos e intensos. Você está criando, co- criando, alterando o tempo inteiro. Isso já é um elemento forte da cultura. Meu contato profissional com o agro foi na Yara. Foi muito interessante, porque esperava um negócio muito mais estável do ponto de vista não financeiro, com pouco apetite para mudança. E foi uma grande surpresa. Depois, com isso, entendi até a minha contratação, porque a empresa realmente começou a se comprometer a trazer pessoas com perfis diversos para promover e sustentar as mudanças que fizemos.

Você foi a primeira mulher autodeclarada negra a assumir o cargo de diretora de RH…

Uma empresa representa o que é a sociedade, transforma e é transformada. Para tomar decisões pelos ou para os colaboradores, é importante ter líderes que conheçam diferentes realidades. Globalmente, a Yara vem em um movimento consistente de promover a inclusão, principalmente de mulheres. Minha posição tem muito a ver com isso no Brasil, sou a primeira geração de executivas mulheres (na empresa), que reportam ao presidente da marca no Brasil. Somos quatro, saímos de zero para quatro em um ano. Além disso, me declaro negra. E, no país, somos muito sub-representadas.

Qual a importância de ter uma meta numérica quando se fala em alcançar diversidade?

Você não muda, não chega em um lugar sem saber o ponto de partida. Temos a ambição de, em 2025, ter 35% de liderança sênior ocupada por mulheres. Também temos de pensar no caminho antes das posições de liderança. Uma prática que temos feito é ter processos de entrada para mulheres em posições tipicamente masculinas. A seleção se mistura com formação e é quase que uma mentoria reversa. Como a gente utiliza essa experiência de ser mulher para criar um ambiente mais equilibrado.

Por que é necessário ter esses processos seletivos exclusivos?

É importante porque quem decide muitas vezes tem vieses de gênero, históricos e "n" questões. É importante ter processos dedicados nesses momentos. Senão, a tendência natural é escolher pessoas parecidas com você. Muitas das queixas dos líderes quando desafiamos "por que não tem mulheres, negros ou pessoas com deficiência?" é que essas pessoas não se candidatam ou não chegam até eles. Acredito muito no poder da decisão de trazer para dentro da empresa o que de fato é a representação da sociedade em que se vive.

Que perfil tem de ter o profissional para atuar no agro?

Disposição para aprender e empreender. O conhecimento funcional, é fácil de desenvolver. É preciso começar a olhar para os talentos muito mais com o potencial de aprendizagem do que com o que sabem fazer ou já fizeram.

E o que precisa fazer para buscar espaço no setor?

Antes de tudo, conhecer a cadeia de valor. O agronegócio vai muito além do produto à mesa. Me interesso muito em pessoas que façam perguntas interessadas, curiosas, e tenham olhares horizontais do negócio, não só verticais. Especialidade é importante? É, mas quanto mais cruzado for esse conhecimento, maior a habilidade de crescer, de se desenvolver. Digitalização é outra ferramenta, não só com o olhar ferramental, mas também relaciona. E tem os pilares de sustentabilidade.

gisele.loeblein@zerohora.com.br

GISELE LOEBLEIN

Fonte : Zero Hora

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