CAMPO E LAVOURA | RS a um certificado de ser livre de aftosa sem vacinação

Agora falta só a confirmação "no papel": o Rio Grande do Sul recebeu aval para ser zona livre de aftosa sem vacinação. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, informou ontem, em reunião virtual com o governador Eduardo Leite e o secretário da Agricultura, Covatti Filho, que o Estado recebeu parecer favorável do Comitê Científico da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) para a evolução do status sanitário, hoje de livre da doença com vacinação.

Além do RS, Paraná, e o Bloco I (Acre, Rondônia e parte do Amazonas e do Mato Grosso) também obtiveram o aval. O parecer será avaliado em maio, na assembleia-geral da OIE – que será virtual, possivelmente no dia 7.

– A fase mais difícil nós vencemos. Estamos praticamente aprovados – disse a ministra na reunião virtual.

O praticamente aprovado é uma ressalva de segurança – 98% aprovados, disse Tereza Cristina. Uma vez na pauta da assembleia da OIE, a homologação do parecer é considerada uma formalidade.

– Superamos todas as barreiras, foram dois anos de muitos debates. É uma questão histórica para nós – afirma o secretário Covatti Filho.

A conquista se torna oficial após a homologação. E traz a expectativa de acesso a novos mercados, como observou Leite:

– E vai incentivar investimentos em frigoríficos, em produção de proteína animal e consequentemente em emprego e renda a nossa população – pontuou Leite.

Segundo o secretário da Agricultura, a estimativa é de ganho inicial de US$ 1,2 bilhão em receita com exportações, e de 25% a 30% no preço recebido pelo produtor.

– É uma notícia muito importante para o RS, do ponto de vista de perspectiva, de valorização da produção, especialmente das proteínas animais – avalia Rogério Kerber, presidente do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal (Fundesa).

Hoje, só Santa Catarina é livre sem vacinação no país.

A mudança traz também uma grande responsabilidade, para o produtor e para o governo, ressalta Gedeão Pereira, presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul):

– O passo está dado.Agora, vamos aguardar a homologação e trabalhar para que não tenhamos problema. A grande preocupação é a possibilidade de haver um foco e não termos como indenizar o produtor.

Projeto quer ampliar produção, com impacto de R$ 31,9 bi

Um Rio Grande do Sul com acréscimo de R$ 12,1 bilhões no faturamento agropecuário e de mais de 24 mil vagas de emprego, gerando um adicional de quase 7% no PIB gaúcho – ou R$ 31,9 bilhões, considerando os efeitos ampliados. Essa é a estimativa do impacto financeiro que resultaria do projeto Duas Safras. Elaborada em parceria por Federação da Agricultura (Farsul), Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e Embrapa, a proposta foi apresentada pela primeira vez ontem e tem como premissas ampliar a produção de inverno e as produtividades na pecuária – bovinos, suínos e aves.

– Enquanto o Brasil caminha para a terceira safra em um ano, o Estado está produzindo 1,09. Porque a produção de inverno é muito pequena, não dá nem para dizer que é uma segunda safra. E a pecuária de corte na Metade Sul precisa produzir mais – pontua Antônio da Luz, economista-chefe do Sistema Farsul.

Cada metade teria o seu foco. No Norte, ampliação da produção de inverno e de aves e suínos. No sul, pecuária bovina com desempenho na média nacional.

– Os dados são eloquentes demais. E as culturas de inverno não são apenas uma possibilidade, são uma necessidade – acrescenta o ex-ministro da Agricultura e atual presidente do Conselho Consultivo da ABPA, Francisco Turra.

Preocupação que persiste

A produção agropecuária tem sido a exceção positiva em meio à pandemia. De forma geral, o setor cresceu e ajudou a evitar um tombo maior da economia brasileira no ano passado. Há segmentos, no entanto, que seguem tendo impactos negativos. É o caso das agroindústrias familiares que ainda sentem o peso do cancelamento das feiras. No Rio Grande do Sul, são cerca de 40 eventos por ano, contando só os que têm apoio da Secretaria da Agricultura.

Canais alternativos de venda foram criados, mas o alcance dessas plataformas não é o mesmo, observa Jocimar Rabaioli, assessor de Política Agrícola e de agroindústrias familiares da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag-RS). Houve relatos de perdas que chegavam a até 70% no faturamento.

– Não se atinge o público que se atingia nas feiras. Além disso, têm papel fundamental, que é na inserção dessas famílias na abertura de novos mercados. Sem falar da troca de experiência, conhecimento, tecnologia.

Os eventos também acabam sendo uma facilidade para o consumidor, que encontra diferentes itens no mesmo lugar. No ano passado, o pavilhão da agricultura familiar da Expodireto foi o único a funcionar nos moldes tradicionais. A exposição ocorreu uma semana antes da confirmação do primeiro caso de covid-19 no RS. Depois disso, na Expointer foi implementado um modelo de drive-thru.

Neste ano, as feiras se mantêm canceladas. Com esse cenário, o setor pleiteou linhas de crédito de apoio. No mês passado, resoluções do Conselho Monetário Nacional atenderam essa solicitações como a que amplia para dois anos o prazo de pagamento de custeio de industrialização contratado até 30 de junho deste ano. Secretário da Agricultura Familiar do Ministério da Agricultura, Fernando Schwancke considera uma "vitória importante para o setor".

Mas a melhora só deve ser perene quando houver vacinação em massa, pontua Rabaioli:

– Porque só assim poderemos voltar na maioria das atividades.

GISELE LOEBLEIN

Fonte: Zero Hora

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