Campo e Lavoura -Palavra do especialista | Produção sustentável – Carlos Nabinger: Biodiversidade para quê?

A agricultura atual busca sempre maximizar a produtividade. Para isso, substitui os ecossistemas naturais geralmente considerados pouco produtivos sob o ponto de vista econômico, por agrossistemas simplificados e altamente especializados: os monocultivos, onde a biodiversidade não é desejada, basicamente porque é pouco entendida. Mas, quando se junta diversidade de formas de vida e a diversidade do meio não vivo (solo e clima) é que vamos perceber que na natureza, muito antes de ser um problema, a biodiversidade é a solução. Assim, em solos pobres e climas áridos, os seres vivos possuem adaptações que lhes permitem suportar altas temperaturas e pouca água, diferentemente daqueles dos ambientes mais úmidos e frescos. E tais seres não são apenas aqueles que nossos olhos veem, como as plantas, aves, répteis, mamíferos, etc., mas também seres microscópicos como bactérias, fungos e protozoários, formas de vida importantes e com funções bem definidas nos ecossistemas, mas cujo papel e função na cadeia da vida ainda são pouco conhecidos. E, o mais importante, todos vivem numa relação de interdependência e adaptados, no seu conjunto, às diferentes matrizes de clima e solo. Portanto, manter o que chamamos de equilíbrio ambiental que garanta a vida humana implicaria em manter a biodiversidade atual naquela condição da complexa interdependência assegurada pelos ambientes naturais. É essa complexidade que assegura funções básicas como a produção de oxigênio e sequestro de gás carbônico mantendo temperatura global, a purificação das águas e recarga de mananciais, condições essenciais para a existência humana.

Mas, os monocultivos são impulsionadores da economia agrícola e toda informação técnica passou a ser direcionada à sua especialização. Plantas adventícias passaram a ser chamadas ervas daninhas, insetos, fungos e bactérias passaram a ser inimigos a combater. Essa concepção determinou/possibilitou o desenvolvimento das indústrias de biocidas, fertilizantes e genética. E tais produtos têm seu uso cada vez mais obrigatório em função das reações da natureza, a qual busca sempre um novo equilíbrio, insistindo na biodiversidade: adventícias resistentes aos herbicidas, vírus, fungos e bactérias que se modificam geneticamente para se manter no hospedeiro ou que buscam outros hospedeiros que antes não utilizavam. E assim, na busca da produtividade a qualquer preço, vamos tentando controlar a biodiversidade e construindo o espiral da insustentabilidade. Haverá outros caminhos?

Carlos Nabinger é mestre em Fitotecnia e doutor em Zootecnia, professor da Faculdade de Agronomia da UFRGS
nabinger@ufrgs.br

Fonte : Zero Hora

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